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Clint Eastwood retorna às telas em adaptação pouco empolgante de musical da Broadway

Jersey Boys

É extensa a lista de atores que se tornaram diretores no cinema. Alguns deles se aventuram por um ou dois filmes, outros porém, incorporam a nova carreira com mais seriedade, realizando trabalhos de qualidade que muitas vezes arrancam elogios dos críticos e de colegas de profissão.

Na grande maioria dos casos os aspirantes ao novo desafio dividem-se entre a direção e a atuação. Robert Redford é um deles. O ator norte-americano foi astro de filmes memoráveis entre as décadas de 60 e 70 entre eles, Butch Cassidy, Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969), Golpe de Mestre, The Sting (1973) e Todos os Homens do Presidente, All the President’s Men (1976). Sua estréia como diretor não poderia ter sido melhor. Em Gente como a Gente, Ordinary People (1980), Redford recebeu no ano seguinte o Oscar de Melhor Diretor. O filme ainda levou os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme. Seu último trabalho na função se deu no ano passado com o filme Sem Proteção, The Company You Keep (2013), filme no qual também atua.

Outro ator que ganhou certa notoriedade como diretor foi George Clooney. Embora não tenha deixado de lado a atuação, Clooney se destacou atrás das câmeras na direção de longas com temática política, além de dirigir a si mesmo. Realizou o elogiado Boa Noite, Boa Sorte, Good Night, Good Luck (2005). O filme conquistou inúmeros prêmios em diversos festivais e foi  indicado a cinco Oscars entre eles Melhor Filme e Melhor Roteiro Original escrito por Grant Heslov e o próprio Clooney. Além deste, o ator/diretor realizou o também político Tudo pelo Poder, The Ides of March (2011). Clooney também dirigiu Confissões de Uma Mente Perigosa, Confessions of a Dangerous Mind (2002) e O Amor Não Tem Regras, Leatherheads (2008) atuando em ambos. Seu último trabalho como diretor e ator foi no recente Caçadores de Obras-Primas, The Monuments Men (2014).

Outro nome que deve ser lembrado é o de Kevin Costner. O ator tornou-se conhecido mundialmente por sua caracterização como Eliot Ness, no excelente Os Intocáveis, The Untouchables (1987), dirigido por Brian De Palma. Três anos mais tarde, Costner atingiria o ápice de sua carreira em sua estréia como diretor no elogiado Dança com Lobos, Dance with Wolves (1990). Costner além de dirigir o longa, produziu e estrelou a obra como o Tenente John J. Dunbar. O filme foi nomeado à doze Oscars. Venceu sete estatuetas entre elas, Melhor Filme, Diretor, Fotografia, Trilha Sonora e Roteiro Adaptado. Costner, no entanto, não conseguiu repetir o sucesso do seu filme de estréia como diretor e amargou o fracasso nas bilheterias e junto à crítica no fraco O Mensageiro, The Postman (1997), que também produziu e atuou. Já em sua terceira incursão por detrás das câmeras, Costner recebeu elogios da crítica no bom filme do gênero faroeste Pacto de Justiça, Open Range (2003).

Mel Gibson é outro nome que sempre figurará nas listas das agradáveis surpresas de atores que se tornaram diretores. O ator ganhou fama internacional e status de galã de Hollywood entre o início dos anos 80 e final dos anos 90, com os filmes da saga Mad Max e da cinesérie Máquina Mortífera. Como diretor Gibson estreou no filme O Homem Sem Face, The Man Without a Face (1993). Dois anos depois chamaria a atenção da crítica para o drama histórico Coração Valente, Braveheart (1995) no qual além de dirigir, produziu e protagonizou a história do patriota escocês e herói medieval William Wallace responsável por liderar seus compatriotas na resistência à dominação inglesa imposta pelo reinado de Eduardo I no final do século XIII. O filme recebeu dez indicações ao Oscar, vencendo em cinco categorias incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. Quase dez anos depois, Gibson dirigiu o polêmico A Paixão de Cristo, The Passion of the Christ (2004). À exemplo de seu filme anterior, Gibson demonstrou enorme talento na condução narrativa e estética na obra, além da inventiva utilização dos movimentos de câmera, que marcariam de forma mais acentuada seu filme posterior Apocalypto, Apocalypto (2006).

Conhecido por encarnar caras durões no cinema entre os quais vale destacar o policial Harry Callahan na série de filmes Dirty Harry, produzidos nas décadas de 70 e 80, além de protagonizar anti-heróis como o Homem Sem Nome da Trilogia dos Doláres nos filmes western spaghetti de Sérgio Leone dos anos 60, Clint Eastwood pode ser considerado o ator que melhor se adaptou à função de diretor. A estréia atrás das câmeras se deu com o suspense Perversa Paixão, Play Misty for Me (1971). De lá para cá, Eastwood dirigiu, produziu e protagonizou inúmeros filmes constantemente elogiados pela crítica e com relativo sucesso de público. Recebeu por duas ocasiões o Oscar de Melhor Diretor pelo altamente recomendável faroeste Os Imperdoáveis, Unforgiven (1992) que também recebeu a estatueta como Melhor Filme e o drama Menina de Ouro, Million Dollar Baby (2004). O longa ainda levou o Oscar de Melhor Filme, Melhor Atriz para Hillary Swank e Ator Coadjuvante para Morgan Freeman. Além dos prêmios da Academia o longa recebeu o César (o Oscar do cinema francês) de Melhor Filme Estrangeiro. Ainda por outras duas ocasiões, Eastwood foi premiado com o César pelos filmes Sobre Meninos e Lobos, Mystic River (2003) e Gran Torino, Gran Torino (2008).

O norte-americano, hoje com 84 anos, continua em plena atividade produzindo, atuando e dirigindo pelo menos um filme por ano. Recentemente estreou em lançamento simultâneo nos Estados Unidos, Europa e Brasil, Jersey Boys – Em Busca da Música, Jersey Boys (2014), o novo longa do octogenário diretor americano baseado no musical da Broadway de mesmo nome e vencedor do Tony Award, o maior prêmio do teatro nos Estados Unidos, equivalente ao Oscar no cinema, o Grammy na música e o Emmy na televisão, entregue anualmente na cidade de Nova Iorque.

O filme se passa na década de 1950, quando o ítalo-americano Tommy DeVito divide seu tempo entre cometer pequenos furtos e comandar uma banda. Ele é amigo do jovem e talentoso Frankie Valli que é convidado para se juntar ao grupo musical. Com a entrada do compositor Bob Gaudio e ao lado do baixista Nick Massi, os quatro rapazes do subúrbio de Nova Jersey, formam uma das mais bem-sucedidas bandas dos anos 1960, o The Four Seasons, responsável por hits como “Sherry”, “Big Girls Don’t Cry”, “Walk Like a Man” e “Can’t Take My Eyes Off You”. O longa retrata a ascensão e queda do quarteto, além das brigas internas e as relações obscuras com a Máfia.

Esta não é a primeira vez que Eastwood flerta com a música no cinema. O norte-americano dirigiu o longa intitulado Bird, Bird (1988) baseado na biografia do músico Charles Parker, um dos mais famosos saxofonistas do jazz.

Geralmente os filmes biográficos não oferecem grandes desafios para os diretores, que não   tendem a fugir do contexto e das características que envolvem os personagens reais. Contudo, e apesar deste engessamento que tal desafio impõe, Eastwood mostrou-se inovador ao aproximar os atores da platéia, quando coloca os mesmos falando para a câmera no momento em que narram trechos da história. Assim, o cineasta estabelece uma cumplicidade maior entre emissor e receptor, quebrando dessa maneira, a barreira existente entre os interlocutores proporcionada pelo cinema.

Talvez o grande problema, não só do recente trabalho de Eastwood, mas de outros tantos que  optaram por transpor para às telas histórias com personagens reais, seja o de recontar o que já foi contado. Sem dúvida, esse é o maior desafio para os realizadores, que na maioria das vezes apenas recriam em imagens o que os seus biografados viveram, sem contribuir com qualquer tipo de inovação, seja ela no âmbito estético ou intelectual da obra. A inventividade na criação de se recontar o que todos já sabem, sem desfigurar a trajetória de vida do biografado é fundamental para se compor um trabalho interessante e consistente. Embora, Eastwood tenha adotado um meio de comunicação mais intimo entre os atores e o público, seu último trabalho peca pelas limitações impostas pelo gênero.

Além do que, Eastwood deveria ter se contido um pouco mais. Fica evidente que o filme deveria ter encerrado na seqüência em que o quarteto se reúne, após mais de vinte anos separados, para uma apresentação em 1990, à título de inclusão no Rock and Roll Hall of Fame, na cidade de Nova Iorque. Não contente, Eastwood alonga o final e em meio à apresentação da banda, os integrantes falam à frente da câmera, numa espécie de depoimento. E como não bastasse,  o diretor norte-americano finaliza o longa com uma seqüência à la Broadway, quando todo o elenco dança um número musical, que beira à certa altura, o ridículo.

Excessos como estes que tornam o filme de Eastwood apenas razoável para o gênero. De fato poderia ter sido pior se não fosse pelo elenco, que embora sem nomes e rostos conhecidos, à exceção de Christopher Walken, que interpreta Angelo “Gyp” DeCarlo, membro da família mafiosa que comandava o crime organizado em Nova Jersey durante os anos 1960. Vale destacar também a competente direção de arte na recriação da época em que se passa a história. Do contrário, o filme poderia ter amargado um grande fracasso.

(Pedro Giaquinto)