Arquivo da tag: Friends

Em fraco drama, Jennifer Aniston se reinventa como atriz e surpreende em atuação inspirada

Cake

Muitos são os casos de atores, vistos com maus olhos pela critica, por suas atuações medíocres frente à filmes voltados para o grande público, que em sua grande maioria, transitam entre os gêneros da comédia e ação. Na verdade, esse filão de produções não está interessada em debater ou expor idéias em contexto intelecto-filosóficos, limitando-se à recorrentes e repetitivas formas de extrair o riso fácil de seus espectadores.

Alguns atores permanecem dentro de um determinado gênero, estagnados em sua zona de conforto até o fim de suas carreiras. Todavia, outra parte, buscando novos desafios dentro da profissão, se aventuram em filmes com conteúdos “mais sérios” no intuito de reafirmarem-se como “atores de verdade”,  na tentativa de serem vistos aos bons olhos dos críticos.

A grande maioria dos que se arriscaram em dar um novo rumo às suas carreiras não decepcionaram, haja vista, o sucesso dos últimos anos de atores que se consagraram após deixarem de lado o cinema pipoca.

Entre os muitos que se reinventaram na profissão pode-se destacar o ator norte-americano Matthew McConaughey, que após inúmeros filmes direcionados ao público feminino, amantes do gênero comédia romântica, McConaughney aos poucos foi se livrando do estigma de ator de um só gênero até culminar na avalanche prêmios vencidos durante o ano de 2013, devido sua inspirada interpretação do caubói soro positivo em Clube de Compras Dallas, Dallas Buyers Club (2013). Outro que ganhou recentemente certa notoriedade com a leva de filmes concorrentes ao último Oscar, foi o também ator norte-americano Steve Carrell, conhecido por suas atuações limitadas em filmes do gênero comédia entre eles, Uma Noite Fora de Série, Date Night (2010) e Amor à Toda Prova, Crazy, Stupid, Love (2011). Em Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo, Foxcatcher (2014), Carrell está irreconhecível na pele do milionário John du Pont, em uma atuação perfeita.

Entre as mulheres a atriz sul-africana Charlize Theron fez com que público e crítica se rendessem ao seu talento no filme Monster – Desejo Assassino, Monster (2003) e afirmar de uma vez por todas que ela não era só mais um rostinho bonito dentro da indústria de cinema norte-americana. A atriz recebeu diversos prêmios por sua interpretação baseada na vida real de uma ex-prostituta que foi sentencia à morte por seus assassinatos em série no final da década de 80 e início dos anos 90.

A atriz norte-americana Sandra Bullock é outro exemplo do sucesso alcançado em decorrência da mudança de rumo na carreira. Bullock surgiu para o grande público no início dos anos 90, devido ao estrondoso sucesso de bilheteria do filme de ação Alta Velocidade, Speed (1994), estrelado por Keanu Reeves.  Três anos depois, a atriz estrelaria a fraca continuação do blockbuster em Velocidade Máxima 2, Speed 2: Cruise Control (1997), dessa vez sem a participação de Reeves no elenco. Todavia, Bullock sempre buscou novos direcionamentos na carreira, alternando diferentes gêneros entre eles comédias, dramas e romances. Outros filmes de pouca expressão junto ao público e crítica se sucederam na carreira da atriz como o fraco Forças do Destino, Forces of Nature (1999). Bullock voltaria a se encontrar novamente com Keanu Reeves em A Casa do Lago, The Lake House (2006) e estrelou comédias de pouca expressão junto a crítica, embora com grande sucesso diante do público como a comédia Miss Simpatia, Miss Congeniality (2000) e a continuação Miss Simpatia 2: Armada e Poderosa, Miss Congeniality 2: Armed and Fabulous (2005). Em 2009 a crítica voltou-se os olhos para Bullock na produção Um Sonho Possível, The Blind Side (2010), filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz no ano seguinte. Bullock ainda foi indicada mais uma fez ao Oscar da categoria no elogiado Gravidade, Gravity (2013).

Outra atriz que parecia ter aceitado sua posição como uma atriz de um só gênero foi Jennifer Aniston. A atriz norte-americana estabeleceu-se na carreira na década de 90 com a personagem Rachel Green no sitcom americano Friends (1994-2004), que rendeu 10 temporadas na televisão norte-americana. Outros filmes sem expressão alguma se sucederam na carreira da atriz como Todo Poderoso, Bruce Almighty (2003) ao lado de Jim Carrey, Caçadores de Recompensa, The Bounty Hunter (2009) e Quero Matar Meu Chefe, Horrible Bosses (2011), filme que rendeu uma continuação de mesmo nome no ano passado.

Entretanto a atriz parece ter tomado novo rumo na carreira ao estrelar o drama Cake – Uma Razão para Viver, Cake (2014). O filme estreiou no mês passado nos cinemas do Reino Unido  e República da Irlanda.

No filme, Aniston vive Claire Bennett, uma mulher traumatizada e depressiva, que busca ajuda em um grupo para pessoas com dores crônicas. Lá, ela descobre o suicídio de um dos membros do grupo, Nina (Anna Kendrick). Claire fica obcecada pela história desta mulher e começa a investigar a sua vida. Aos poucos, começa a desenvolver uma relação inesperada com o ex-marido de Nina, Roy (Sam Worthington).

Este é o quinto filme dirigido por Daniel Barnz, que notoriamente tem o universo feminino enraizado dentro de sua filmografia. É verdade que Barnz não tenha feito muito barulho com suas produções anteriores. Certamente o diretor norte-americano tenha obtido seu maior triunfo  com a produção escrita e dirigida por ele em A Menina no País das Maravilhas, Phoebe in Wonderland (2009), que diga-se de passagem, não passa de uma vergonhosa cópia da famosa história infantil escrita por Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. O filme foi exibido, antes de sua estréia em circuito comercial, na mostra competitiva do badalado Sundance Filme Festival.

Em seu recente trabalho, Barnz confirma ser um diretor limitado e refém do estilo e gênero aos quais se propôs a trabalhar. O maior defeito em Cake é dar vazão às aparições da suicida em diversos momentos na vida da personagem interpretada por Aniston, que em um primeiro momento soa extremamente estranho e sem sentido, embora no decorrer da projeção a esquisitice da primeira sensação continue a mesma. O problema vivido pela personagem de Aniston, que até então não nos fora revelado, toma contornos diferentes quando a mesma decide buscar explicações para o suicídio de Nina.

Barnz não consegue dominar suas duas problemáticas dentro do filme, onde os problemas propostos ao invés de serem resolvidos, anulam-se pelos subterfúgios fugazes usados pelo diretor para contar a história do trauma da perda da personagem de Aniston, que gradativamente se perde no transcorrer do filme.

Vale ressaltar também a má utilização do excelente e premiado ator William H. Macy, em uma desnecessária seqüência, que ocupa menos de cinco minutos na projeção, numa tentativa de ilustrar os transtornos psicológicos enfrentados pela personagem principal, já à esta altura entendidos pelo público. E em meio destes problemas insolucionáveis, esta Jennifer Aniston que se sobressaí heroicamente.

Não há dúvidas de que a personagem vivida por Aniston tenha exigido ao máximo da atriz em termos de interpretação, se pensarmos que Aniston, na maioria de seus trabalhos, levou às telas ela por ela mesma, com alguma ou outra variante.

Em Cake, Aniston faz com que esqueçamos a atriz mediana de outros tempos. Sem exagerar ou carregar em demasia as emoções da personagem, afastando-se dessa maneira do sentimentalismo piegas da maioria das produções do gênero. A atriz nos mostra, aos 46 anos de idade, o amadurecimento do seu trabalho na profissão. Não é a toa que Aniston entrou para a lista do Oscar dos atores injustamente preteridos a uma indicação na categoria. Talvez com Aniston na concorrência, Julianne Moore, vencedora da estatueta na categoria de Melhor Atriz deste ano, não tivesse vida fácil ou pelo menos as apostas para a vencedora ao prêmio teriam sido divididas por igual.

Resta-nos saber se Aniston não retornará às produções medianas de outrora ou caíra na tentanção de interpretar ela mesma novamente. Se não o fizer, o cinema e o público ganharam imensamente com a nova atriz que acabara de nascer, e por outro lado, a critica saberá se render ao seu talento.

Ao diretor Daniel Barnz, talvez seja o momento para se pensar em mudanças ou pelo menos se aprofundar de uma maneira mais intensa nos temas propostos por ele mesmo, sem isolar da história a essência original da premissa dramática.

No Brasil, Cake – Uma Razão para Viver tem estréia prevista para o mês de Abril.

(Pedro Giaquinto)

Anúncios