Arquivo mensal: maio 2015

Sem trazer novidades para o gênero, diretor dinamarquês realiza faroeste arroz com feijão

The Salvation

É de consenso geral que os filmes de faroeste são por excelência um gênero criado pelo cinema norte-americano. Apesar de não serem politicamente corretos, fizeram história durante muitas décadas.

Inúmeros atores e atrizes, como também diretores e produtores, se consagraram dentro do gênero repleto de sangue, tiroteios, assassinatos, donzelas em perigo, mocinhos, bandidos e incríveis seqüências de perseguições à cavalo, em histórias nas quais a vingança e a honra eram a lei do Oeste americano.

Entre os muitos filmes do gênero destaca-se No Tempo das Diligências, Stagecoach (1939) dirigido por John Ford, considerado por muitos o melhor cineasta do gênero. Ford também assinou a direção de outros clássicos do cinema de cowboy, entre eles, Rio Bravo, Rio Grande (1950), Depois do Vendaval, The Quiet Man (1952), Rastros de Ódio, The Searchers (1956) e O Homem que Matou o Facínora, The Man Who Shot Liberty Valance (1962) todos estrelados pelo ator norte-americano John Wayne, ícone e grande astro dos filmes de faroeste.

Vale ainda destacar a altamente recomendável obra-prima Era Uma Vez no Oeste, Once Upon a Time in the West (1968) dirigido por Sergio Leone, que certamente tornou-se um dos diretores mais emblemáticos do gênero. O cineasta italiano ainda popularizou um subgênero de filmes de western, chamado Spaghetti Western ou Bang-bang à italiana, como ficaram conhecidos no Brasil. Subgênero este, que nada mais era do que filmes realizados com pouco aporte financeiro, baixa qualidade e falados em italiano. Entre os mais conhecidos filmes do faroeste à italiana está a trilogia dos doláres Por um Punhado de Doláres, A Fistful of Dollars (1964), Por uns Doláres a Mais, For a Few Dollars More (1965) e Três Homens em Conflito/ O Bom, o Mal e o Feio, The Good, The Bad and the Ugly (1966) dirigidos por Leone e estrelados por Clint Eastwood com as famosas e inesquecíveis trilhas sonoras de Ennio Morricone.

Certamente devido às novas tecnologias e o pouco interesse pelos caubóis do passado, os filmes de faroeste se transformaram de um gênero tão aclamado entre as décadas de 40, 50 e final dos 60 à um gênero em extinção nos dias atuais, ainda que, por rarissimas vezes é lembrado por um ou outro filme que retoma o tema do vaqueiro errante do velho oeste americano contra os temidos foras-da-lei, como retratado no bom Pacto de Justiça, Open Range (2003) dirigido, produzido e estrelado por Kevin Costner ou em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007), estrelado por Brad Pitt.

Entre esses e outros esporádicos lançamentos de filmes de faroeste, estreiou no Reino Unido e República da Irlanda, The Salvation (2014), que narra a história de Jon (Mads Mikkelsen), um pacífico colono dinamarquês na América de 1870, que mata o culpado por assassinar sua mulher e filho. Para a infelicidade do pacato colono, o homem assassinado era irmão do líder de uma famosa e temível gangue local. Para sobreviver em meio à fúria dos foras-da-lei, Jon é forçado a caçar a gangue com as próprias mãos.

O longa não traz grandes nomes no elenco, à exceção da atriz francesa Eva Green da série Penny Dreadfull (2014) , 007- Cassino Royale, Casino Royale (2006) e Sin City: A Dama Fatal, Sin City: A Dame to Kill For (2014), além do veterano ator britânico Jonathan Pryce de Brazil – O Filme, Brazil (1985) e Evita, Evita (1996) e o ex-jogador de futebol o francês Eric Cantona, que acreditem ou não, é dono de uma extensa carreira como ator.

The Salvation é dirigido pelo dinamarquês Kristian Levring, que diga-se de passagem, não se preocupou em acrescentar algo novo ao gênero. A produção tem todos os ingredientes de um bom filme de mocinho e bandido com seqüências de ação características dos filmes de caubóis, um personagem de poucas falas, um vilão inescrupuloso e sedento por vingança, cenários belíssimos que nos remetem aos velhos e inesquecíveis filmes de um tempo distante, quando o gênero era sucesso entre público e critica.

Levring ganhou internacional notoriedade por ter dirigido O Rei Está Vivo, The King is Alive (2000), quarto filme do movimento cinematográfico criado em 1995 pelos cineastas dinamarquês Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, que ficou conhecido como Dogma95. O manifesto continha dez regras de cunho técnico e ético entre elas, uma série de restrições quanto ao uso de tecnologia nos filmes como uso de iluminação especial ou música ou posterior edição de som.

Entre o seu filme produzido dentro do Dogma95 e The Salvation, seu último longa-metragem, foram-se 10 anos e apenas mais dois filmes realizados sem nenhuma projeção na mídia especializada, The Intended (2002) produzido no Reino Unido e Fear Me Not (2008), uma produção dinamarquesa. Ambos os filmes não foram lançados no Brasil.

O filme de Levring cumpre seu papel como um mediano filme do gênero. Para os amantes dos bons e velhos filmes de faroeste, The Salvation os presenteia com a nostalgia de outrora e a dura e crua verdade dos tempos atuais onde os filmes de cowboy estão reduzidos à produções sem sentido como Cowboys & Aliens (2011) ou na péssima comédia Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola, A Million Ways to Die in the West (2014).

The Salvation ainda não tem previsão de estréia para o Brasil.

(Pedro Giaquinto)

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