Com um elenco de atores competentes, cineasta britânica retrata o preconceito racial da aristocracia inglesa do Séc. XVIII

Gugu Mbatha-Raw Sarah Gadon

De tempos em tempos, um razoável número produções com uma temática específica invade, quase que simultaneamente, os cinemas. Dos  escritos bíblicos às adaptações dos famosos HQs de super-heróis passando por temas delicados como a questão racial e os terrores das guerras mundiais são muitos os filmes que dividem a atenção entre o público e a crítica.

No segundo semestre do ano passado, ainda no fervor das notícias sobre o estado de saúde do líder sul-africano o presidente Nelson Mandela, três longas-metragens que tinham como tema principal o racismo foram lançados em intervalos muito curtos entre eles e que culminou com as nove indicações ao Oscar para o premiado longa-metragem dirigido pelo britânico Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão, 12 Years a Slave (2013). O filme levou três prêmios: melhor atriz coadjuvante, roteiro adaptado e melhor filme. Foi a primeira vez na história da Academia que um filme de um diretor negro conquistou a estatueta. As outras produções foram O Mordomo da Casa Branca, The Butler (2013) e Mandela, Mandela: Long Walk to Freedom (2013).

Belle, Belle (2013) lançado no último final de semana no Reino Unido e República da Irlanda é outro filme que tem como tema principal a questão racial. Embora, lançando em circuito comercial somente no final do primeiro semestre de 2014, Belle faz parte dos filmes como a mesma temática produzidos e lançados no ano passado. A estréia do filme se deu no Festival Internacional de Cinema de Toronto ou também conhecido como TIFF (sigla em inglês para Toronto International Film Festival), considerado um dos mais importantes festivais da indústria cinematográfica mundial ao lado dos festivais de Cannes, Veneza e Berlim.

Belle conta a história de Dido Elizabeth Belle, filha do capitão britânico John Lindsay com uma escrava africana. Após a morte da mãe, Dido vai morar na Inglaterra com o tio, Lorde Mansfield, para ser criada como uma dama da aristocracia. A jovem se apaixona pelo aspirante a advogado John Davinier, mas esse relacionamento irá enfrentar os preconceitos da sociedade inglesa. O longa foi inspirado e baseado na história verdadeira por detrás da pintura de 1779 em que Dido Elizabeth Belle posa ao lado de sua prima Lady Elizabeth Murray em Kenwood House. O filme conta ainda com um elenco de rostos conhecidos do grande público entre eles os britânicos Tom Wilkinson, Emily Watson e Miranda Richardson. A personagem título é interpretada pela também britânica Gugu Mbatha-Raw.

O filme é dirigido pela filha de imigrantes ganeses e ex-atriz e roteirista, a britânica Amma Asante. Belle é o segundo filme dirigido por Asante, que havia estreado na direção de longa-metragens com o filme A Way of Life (2004).  Como atriz, Asante realizou algumas participações em séries TV, entre as quais pode-se destacar: Birds of a Feather (1989-1998) com duas participações. A série originalmente realizada pela BBC One, retornou no início desde ano pelo canal ITV. Asante ainda participou de apenas um episódio da série intitulada Desmond’s (1989-1994). Sem dúvida, seu trabalho com maior destaque tenha sido na série Grange Hill (1978-2008), uma das séries que mais tempo permaneceu no ar na televisão britânica. Ao todo, a participação de Asante contabilizou 32 episódios entre os anos de 1986-87.

Dez anos depois desde seu primeiro longa-metragem como diretora, Asante retorna com um filme de época, completamente diferente de sua primeira experiência, que retratava a complicada vida de uma adolescente mãe solteira envolvida em pequenos delitos praticados com seu irmão e amigos, além de conviver dia após dia, com o medo de perder a guarda da filha para o serviço social.

Em Belle, a cineasta retorna no tempo, mais precisamente no século 18 para tratar de um tema que infelizmente nunca deixará de ser debatido: o preconceito racial. Embora, Asante centralize a ação acerca do tema existente dentro de uma determinada família aristocrata inglesa, o filme pretende reviver um dos episódios, entre muitos que se tem conhecimento, mais tristes e desumanos da história da escravidão. E é entre uma e outra seqüência onde são retratados os problemas enfrentados pela personagem vivida por Mbatha-Raw, que o filme de Asante relata, não por meio de imagens, e sim pelo tumultuado relacionamento entres os personagem do juiz Lorde Mansfield e do aspirante advogado John Davinier, o chocante e cruel episódio que ficou conhecido como o Massacre de Zong.

Em 29 de Novembro de 1781, o capitão do navio negreiro Zong, Luke Collingwood, ordenou que um terço de sua carga fosse jogada ao mar. Collingwood se referia aos 142 escravos africanos com destino à Jamaica.  O motivo: receber o seguro. O caso foi levado ao tribunal, não pelo assassinato, mas contra as seguradoras que se recusaram a pagar o seguro.

À parte da barbárie ocorrida no triste evento acima citado, Belle traz ainda as questões do casamento, moralidade e status financeiro e social impregnados no modo de vida da sociedade inglesa aristocrata. É impossível não se lembrar das adaptações para o cinema das obras da escritora inglesa Jane Austen entre eles, Razão e Sensibilidade, Sense and Sensibility (1995), dirigido por Ang Lee e com roteiro de Emma Thompson e Orgulho e Preconceito, Pride and Prejudice (2005), dirigido por Joe Wright.

Asante, embora, apoiada por um elenco de atores competentes, realiza um filme sóbrio com  direção competente para um gênero que traz muitos desafios à profissão no que concerne ao difícil trabalho para se recriar uma determinada época histórica. Vale destacar também a belíssima trilha sonora composta por Rachel Portman, conhecida por seu trabalho em filmes como Chocalate, Chocolat (2000) e Regras da Vida, The Cider House Rules (1999) pelos quais foi indicada ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. Prêmio que levou pelo filme Emma, Emma (1996), se transformando na primeira compositora feminina a consquitar a estatueta.

Para os amantes dos filmes de época, Belle não deixa de ser uma excelente oportunidade para conferir um bom filme do gênero.

O filme ainda não tem previsão de estréia no Brasil.

(Pedro Giaquinto)

 

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