O cinema panfletário de Ken Loach

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Para a maioria dos estúdios, e por conseguinte, dos produtores da indústria cinematográfica, os filmes foram feitos para entreter e divertir, com um único e transparente objetivo: fazer dinheiro. Outros, ao contrário, usam o cinema como meio de expressar as incoerências e as mazelas sofridas diariamente pelas pessoas menos favorecidas da sociedade. Sem contar com orçamentos milionários repletos de efeitos especiais e sem a presença de atores hollywoodianos pagos com cachês exorbitantes, é sabido de antemão, que seus filmes serão projetados por no máximo uma ou duas semanas nos grandes complexos de salas de cinema, quando muito arrecadarão de volta nas bilheterias o que foi gasto para produzí-los. Ao final serão reduzidos à cine clubes e festivais de cinema, onde então encontrarão o fiel e apaixonado público dos filmes do gênero.

O britânico Ken Loach é um desses exemplos de militância no cinema. Um diretor que têm sempre como principal argumento em seus filmes as questões sociais, entre elas os direitos dos trabalhadores, a imigração, os sem-teto e os oprimidos por um governo autoritário.

Frequentador assíduo dos grandes festivais de cinema, Ken Loach tornou-se um cineasta premiado. Entre seus inúmeros prêmios destacam-se a Palma de Ouro de Melhor Filme para Ventos da Liberdade, The Wind that Shakes the Barely (2006), levou por três ocasiões, também no  Festival de Cannes, o Prêmio do Júri pelos filmes Agenda Secreta, Hidden Agenda (1990), Chuva de Pedras, Raining Stones (1993) e A Parte dos Anjos, Angel’s Share (2012), além de ter sido premiado em Fevereiro deste ano com o Urso de Ouro no Festival de Berlim pelo conjunto de sua obra.

Logo após ser bem recebido pela critica especializada no Festival de Cannes deste ano, e além de ter concorrido à Palma de Ouro de Melhor Filme, vencido pelo drama turco Wiinter Sleep (2014) do diretor Nuri Bilge Ceylan, entrou em cartaz no último final de semana na Irlanda e Reino Unido, o mais recente trabalho do aclamado cineasta britânico intitulado Jimmy’s Hall (2014), ainda sem título em português. O filme não tem previsão de estréia no Brasil.

Dessa vez, Loach conta a história de Jimmy Gralton (Barry Ward), líder comunista irlandês, que desafiou a Igreja Católica questionando sua censura à liberdade de expressão. Gralton gerou discórdia ao inaugurar um espaço para as pessoas debaterem, aprenderem e, sobretudo, dançarem. A trama retoma o período em que o rapaz retorna ao seu país natal, após ter passado dez anos em Nova York.

O cineasta britânico continua a parceira com o roteirista Paul Laverty, que atinge treze colaborações e teve início em 1996 com o filme Uma Canção para Carla, Carla’s Song (1996), que conta o relacionamento entre um motorista de ônibus escocês e uma nicaraguense que encontra-se exilada em Glasgow, Escócia.

Em seu recente trabalho, Loach retoma mais uma vez o tema que abrange o período de lutas entre o  governo britânico e os trabalhadores irlandeses, que reivindicavam a independência do país, descontentes com a administração britânica. O período de guerrilha compreende os anos 1919-21, época que marca também a formação do Exército Republicano Irlandês, mais conhecido como IRA.

Em Ventos da Liberdade, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, Loach já havia debatido sobre o período conturbado que viveu a República da Irlanda na luta por sua autonomia frente aos ingleses. No longa de 2006, o cineasta concentrou a trama na gerra civil entre as forças do império britânico que tentavam compelir de qualquer maneira o avanço das forças de independência liderada, pelo até então embrionário, IRA.  Já em Jimmy’s Hall, Loach retrata a história acerca de um indivíduo isolado dentro do período que compreende a guerra pela independência da Irlanda. Embora, tenha sido membro do IRA, o cineasta não mostra Jimmy como um homem que pega em armas e vai para o combate, e sim, como um orador, articulador, líder e porta-voz da luta contra a opressão do regime autoritário exercido pelo coroa inglesa e membros da igreja.

Ao que se sabe, isso segundo historiadores, Jimmy Gralton foi alvo de manobras do partido republicano o Fianna Fáil e também de elementos conservadores dentro de um IRA reacionário, existente no condado de Leitrim onde se transcorre a história, que desejavam sumariamente a deportação de Gralton para os Estados Unidos, devido suas tendências comunistas e os inúmeros inimigos que com o tempo foi colecionando.

Pelo visto, Loach não enveredou por essa direção, optando por não acrescentar outras informações sobre os hipotéticos, e porque não, reais motivos à respeito da deportação de Gralton. Talvez, se o fizesse, aprofundaria em demasia o contexto político da história do personagem, que sem dúvida alguma incorporaria questões de âmbito conspiratório à obra, o que evidentemente  descentralizaria a premissa dramática, que por si só já contém suficientes e verossímeis razões no que concerne ao destino final de Gralton.

No Festival de Cannes desse ano Ken Loach falou em aposentadoria. Esperamos que o cineasta britânico desista logo da idéia, e continue encantando com seu cinema panfletário, autêntico e questionado, que grita por liberdade e justiça, sem receio algum de se posicionar contra ou a favor.

(Pedro Giaquinto)

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