Arquivo mensal: junho 2014

Com um elenco de atores competentes, cineasta britânica retrata o preconceito racial da aristocracia inglesa do Séc. XVIII

Gugu Mbatha-Raw Sarah Gadon

De tempos em tempos, um razoável número produções com uma temática específica invade, quase que simultaneamente, os cinemas. Dos  escritos bíblicos às adaptações dos famosos HQs de super-heróis passando por temas delicados como a questão racial e os terrores das guerras mundiais são muitos os filmes que dividem a atenção entre o público e a crítica.

No segundo semestre do ano passado, ainda no fervor das notícias sobre o estado de saúde do líder sul-africano o presidente Nelson Mandela, três longas-metragens que tinham como tema principal o racismo foram lançados em intervalos muito curtos entre eles e que culminou com as nove indicações ao Oscar para o premiado longa-metragem dirigido pelo britânico Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão, 12 Years a Slave (2013). O filme levou três prêmios: melhor atriz coadjuvante, roteiro adaptado e melhor filme. Foi a primeira vez na história da Academia que um filme de um diretor negro conquistou a estatueta. As outras produções foram O Mordomo da Casa Branca, The Butler (2013) e Mandela, Mandela: Long Walk to Freedom (2013).

Belle, Belle (2013) lançado no último final de semana no Reino Unido e República da Irlanda é outro filme que tem como tema principal a questão racial. Embora, lançando em circuito comercial somente no final do primeiro semestre de 2014, Belle faz parte dos filmes como a mesma temática produzidos e lançados no ano passado. A estréia do filme se deu no Festival Internacional de Cinema de Toronto ou também conhecido como TIFF (sigla em inglês para Toronto International Film Festival), considerado um dos mais importantes festivais da indústria cinematográfica mundial ao lado dos festivais de Cannes, Veneza e Berlim.

Belle conta a história de Dido Elizabeth Belle, filha do capitão britânico John Lindsay com uma escrava africana. Após a morte da mãe, Dido vai morar na Inglaterra com o tio, Lorde Mansfield, para ser criada como uma dama da aristocracia. A jovem se apaixona pelo aspirante a advogado John Davinier, mas esse relacionamento irá enfrentar os preconceitos da sociedade inglesa. O longa foi inspirado e baseado na história verdadeira por detrás da pintura de 1779 em que Dido Elizabeth Belle posa ao lado de sua prima Lady Elizabeth Murray em Kenwood House. O filme conta ainda com um elenco de rostos conhecidos do grande público entre eles os britânicos Tom Wilkinson, Emily Watson e Miranda Richardson. A personagem título é interpretada pela também britânica Gugu Mbatha-Raw.

O filme é dirigido pela filha de imigrantes ganeses e ex-atriz e roteirista, a britânica Amma Asante. Belle é o segundo filme dirigido por Asante, que havia estreado na direção de longa-metragens com o filme A Way of Life (2004).  Como atriz, Asante realizou algumas participações em séries TV, entre as quais pode-se destacar: Birds of a Feather (1989-1998) com duas participações. A série originalmente realizada pela BBC One, retornou no início desde ano pelo canal ITV. Asante ainda participou de apenas um episódio da série intitulada Desmond’s (1989-1994). Sem dúvida, seu trabalho com maior destaque tenha sido na série Grange Hill (1978-2008), uma das séries que mais tempo permaneceu no ar na televisão britânica. Ao todo, a participação de Asante contabilizou 32 episódios entre os anos de 1986-87.

Dez anos depois desde seu primeiro longa-metragem como diretora, Asante retorna com um filme de época, completamente diferente de sua primeira experiência, que retratava a complicada vida de uma adolescente mãe solteira envolvida em pequenos delitos praticados com seu irmão e amigos, além de conviver dia após dia, com o medo de perder a guarda da filha para o serviço social.

Em Belle, a cineasta retorna no tempo, mais precisamente no século 18 para tratar de um tema que infelizmente nunca deixará de ser debatido: o preconceito racial. Embora, Asante centralize a ação acerca do tema existente dentro de uma determinada família aristocrata inglesa, o filme pretende reviver um dos episódios, entre muitos que se tem conhecimento, mais tristes e desumanos da história da escravidão. E é entre uma e outra seqüência onde são retratados os problemas enfrentados pela personagem vivida por Mbatha-Raw, que o filme de Asante relata, não por meio de imagens, e sim pelo tumultuado relacionamento entres os personagem do juiz Lorde Mansfield e do aspirante advogado John Davinier, o chocante e cruel episódio que ficou conhecido como o Massacre de Zong.

Em 29 de Novembro de 1781, o capitão do navio negreiro Zong, Luke Collingwood, ordenou que um terço de sua carga fosse jogada ao mar. Collingwood se referia aos 142 escravos africanos com destino à Jamaica.  O motivo: receber o seguro. O caso foi levado ao tribunal, não pelo assassinato, mas contra as seguradoras que se recusaram a pagar o seguro.

À parte da barbárie ocorrida no triste evento acima citado, Belle traz ainda as questões do casamento, moralidade e status financeiro e social impregnados no modo de vida da sociedade inglesa aristocrata. É impossível não se lembrar das adaptações para o cinema das obras da escritora inglesa Jane Austen entre eles, Razão e Sensibilidade, Sense and Sensibility (1995), dirigido por Ang Lee e com roteiro de Emma Thompson e Orgulho e Preconceito, Pride and Prejudice (2005), dirigido por Joe Wright.

Asante, embora, apoiada por um elenco de atores competentes, realiza um filme sóbrio com  direção competente para um gênero que traz muitos desafios à profissão no que concerne ao difícil trabalho para se recriar uma determinada época histórica. Vale destacar também a belíssima trilha sonora composta por Rachel Portman, conhecida por seu trabalho em filmes como Chocalate, Chocolat (2000) e Regras da Vida, The Cider House Rules (1999) pelos quais foi indicada ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. Prêmio que levou pelo filme Emma, Emma (1996), se transformando na primeira compositora feminina a consquitar a estatueta.

Para os amantes dos filmes de época, Belle não deixa de ser uma excelente oportunidade para conferir um bom filme do gênero.

O filme ainda não tem previsão de estréia no Brasil.

(Pedro Giaquinto)

 

A combinação perfeita entre diretor e ator

Locke

Entreter um grupo de pessoas confinadas à uma sala de cinema, não é uma das tarefas mais fáceis do mundo para um cineasta. Um filme com belos rostos e corpos malhados, um roteiro sem muita complexidade que intercale momentos de ação, comédia e romance e uma trilha sonora preferencialmente recheada com sucessos da atualidade seriam, de certa maneira, a receita mais rápida e eficaz para se criar um filme, que agradará o público em geral além é claro, de não trazer dores de cabeça para o diretor ou o estúdio que o produziu.

Porém, alguns diretores se arriscam perigosamente na escolha estética de seus filmes e confiam completamente na sua capacidade de envolver o público com suas histórias, utilizando, em alguns casos, um único personagem. Este, apoiado por elementos externos como conversas via telefone ou vislumbres em forma de sonhos ou distúrbios psicológicos que projetam seus medos e desejos, criarão as condições adequadas para o desenvolvimento da história.

Colocar um homem vivo em um caixão de madeira e à partir daí contar uma história com  pouco mais de uma hora e meia, não é para qualquer um. O cineasta espanhol Rodrigo Cortés é um desses audaciosos que se aventuram a transcrever para as telas  “monólogos cinematográficos”. Em Enterrado Vivo, Burried (2010), Paul Conroy (Ryan Reynolds) é um americano que trabalha como motorista de caminhão no Iraque. Ele acorda e sem saber como, está enterrado vivo dentro de caixão de madeira. Ele tem em suas mãos apenas um telefone celular e um isqueiro. Outro exemplo é 127 Horas, 127 Hours (2010), estrelado por James Franco e dirigido por Danny Boyle, do premiado Quem Quer ser um Milionário?, Slumdog Millionaire (2008).  O filme é baseado na autobiografia do alpinista Aron Ralston, que teve seu braço preso entre duas rochas, e lutou por sua sobrevivência durante 5 dias. O longa conquistou seis indicações ao Oscar.

Estreiou em Abril passado no Reino Unido e Estados Unidos e ainda sem previsão de estréia no Brasil, outro filme que traz como característica principal um personagem solitário cercado por um emaranhado de problemas, tendo que solucioná-los de uma maneira ou de outra. Locke, Locke (2013) conta a história de Ivan Locke (Tom Hardy), um homem que tem um importante cargo na construção civil. Certo dia, ao deixar o trabalho, Locke recebe um telefonema e a partir de então inicia uma viagem de carro entre Birmingham e Londres. No decorrer da jornada, Locke terá que solucionar problemas de ordem pessoal e profissional, enquanto tem conversas imaginárias com o seu pai falecido. O filme foi apresentado fora de competição no 70th Festival Internacional de Cinema de Veneza.

Locke é o segundo longa-metragem dirigido e escrito pelo britânico Steven Knight. Knight é conhecido na indústria cinematográfica britânica por sua contribuição como roteirista. Iniciou sua carreira escrevendo alguns episódios para a série de televisão exibida na BBC intitulada The Detectives (1993-1197).  Em 1998, criou o game show Who Wants to Be Millionaire?, que oferecia prêmios em dinheiro para os seus participantes. No cinema, o britânico escreveu o roteiro de Coisas Belas e Sujas, Dirty Pretty Things (2003), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original no ano seguinte. O filme foi dirigido por Stephen Frears e estrelado por Chiwetel Ejiofor e Audrey Tautou, que eternizou a personagem título do filme francês dirigido por Jean-Pierre Jeunet, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain (2001). Knight ainda roterizou, entre outros, Jornada para a Liberdade, Amazing Grace (2006) e Senhores do Crime, Eastern Promises (2007), dirigido pelo renomado e cult diretor canadense David Cronenberg.

A estréia de Knight na direção de longas, se deu no ano passado com o fraco Redenção, Hummingbird (2013), estrelado pelo ator do gênero porrada Jason Statham, conhecido por atuar em filmes de ação como Os Mercenários I e II, The Expendables I,II (2010, 2012), Os Especialistas, Killer Elite (2011), entre muitos outros.

Knight realmente surpreende com a mudança de gênero e estética em seu segundo longa como diretor. Seria, de certa maneira, confortável realizar um outro filme de ação com acrobáticas seqüências de lutas, mas Knight decidiu experimentar algo diferente e acertou em sua escolha. O britânico apresenta um filme enxuto, com um roteiro bem amarrado e uma interpretação segura e eficaz de Tom Hardy, o único ator em cena durante o filme. Os demais atores funcionam como suporte para o personagem de Hardy, que durante toda a projeção alternam-se nas conversas ao telefone.

Vale notar que a exemplo do filme Tempo Esgotado, Nick of Tiime (1995), estrelado por Jonhhy Deep, Locke é narrado em tempo real, ou seja, cada minuto do filme equivale a um minuto real. No filme de 1995, o personagem de Deep tinha uma hora e meia, a duração do filme, para salvar sua filha de seis anos das mãos de seqüestradores. Em Locke, o personagem título demorará aproximadamente o tempo do filme numa viagem de carro entre as cidades de Birmingham e Londres.

Knight demonstra habilidade em nos apresentar tranquilamente cada personagem e nos dá a chance para conhecê-los aos poucos, transformando-nos em seus cúmplices e ouvintes, ao mesmo tempo em que compartilham suas dores e problemas. É surpreendente que, embora os personagens não estejam em cena fisicamente, em nenhum momento perde-se o interesse pela filme. Ao contrário, a espera por novas informações mantêm o público atento a cada troca de diálogo entre eles e o personagem título.

Se o filme arrancou elogios da crítica, méritos também para o excelente desempenho do ator britânico, Tom Hardy, que tem uma interpretação soberba, lúcida e equilibrada. Sem cometer excessos na composição de seu personagem, Hardy comanda com maestria sua atuação, intercalando momentos de um contido desespero e o arrependimento silencioso e agonizante de um homem íntegro que, por infelicidade do destino, cometeu um deslize que colocou em risco sua vida conjugal e profissional. O ator britânico tornou-se conhecido do grande público por suas atuações nos filmes A Origem, Inception (2010) e Batman: O Cavalheiro das Trevas Resurge, The Dark Knight Rises (2012) no qual interpretou o vilão Bane. Ambos os filmes foram dirigidos pelo também britânico Christopher Nolan.

E justiça seja feita: em seu recente filme Knight se redimi do fiasco de sua estréia na direção de longas-metragens e mostra-se pronto para novos desafios. Tom Hardy, por sua vez, foi escalado para viver o personagem Max Rockatansky, mais conhecido como Mad Max em Mad Max: Fury Road, previsto para 2015 com direção de George Miller, responsável pelos três primeiros filmes da cine série, que lançou Mel Gibson ao estrelato e que apenas confirmará Tom Hardy como o novo astro do cinema mundial.

(Pedro Giaquinto)

Tom Cruise em mais do mesmo

Nos tempos atuais em que Robert Pattinson, protagonista dos filmes da série Crepúsculo e Zac Efron, conhecido por protagonizar a franquia High School Musical são, entre outros, considerados os bonitões de Hollywood, capazes de enlouquecer as adolescentes mundo afora e responsáveis por levar um grande público feminino aos cinemas. Se, por um lado não agradam a crítica especializada por estrelarem filmes de conteúdo duvidoso, por outro lado fazem a alegria dos grandes estúdios, que enchem seus cofres filme a filme com o faturamento das bilheterias e outros produtos que, durante o tempo de exibição nos cinemas ou posteriormente, venham a ser comercializados em decorrência do sucesso das produções.

A verdade é, toda a década trouxe ao cinema atores que conseguiram se estabelecer no mainstream, mais pela beleza do que pelo talento. O talento, na maioria das vezes, é colocado em segundo plano. Para alguns, o tempo de trabalho e a escolha de personagens bem construídos lhes permitirão mostrar se têm ou não vocação para o oficio. Outros porém, serão eternamente um rostinho bonito e nada mais. Exemplos se encontram aos montes. Mattew McConaughey é um deles. Há praticamente duas décadas foi lançado no cinema e logo atingiu o status de galã devido sua beleza e carisma frente o público feminino. Sua carreira poderia ter sido resumida como a do ator de comédias românticas que tira o fôlego das mulheres nas salas de cinema. McConaughey, no entanto, virou a mesa e a partir da década passada começou a escolher personagens que lhe proporcionaram condições apropriadas para que pudesse mostrar uma maior versatilidade como ator. Hoje, vencedor de inúmeros prêmios pelos seus trabalhos e recentemente vencedor do Oscar de Melhor Ator por sua primorosa caracterização de um eletricista diagnosticado com AIDS no filme Clube de Compras Dallas, Dallas Buyers Club (2013), McConaughey é considerado um ator no qual a beleza sucumbiu ao talento.

Na década de 80 foram muitos os rostinhos bonitos que surgiram no cinema. Francis Ford Coppola, diretor de obras-primais entre elas, a trilogia O Poderoso Chefão I,II e III, The Godfather I, II, III (1972, 1974, 1990), baseados no romance de Mario Puzo e Apocalypse Now, Apocalypse Now (1979), foi o responsável por reunir no filme Vidas sem Rumo, The Outsiders (1983) as grandes promessas do cinema para a década que se iniciava. Entre os novos rostos que despontavam no cinema com possibilidades de figurar entre os novos galãs da época, estavam: Ralph Macchio, C. Thomas Howell, Matt Dillon, Rob Lowe, Emilio Estevez, Patrick Swayze e Tom Cruise. Enquanto, a maioria deles optou por estabelecer carreira na televisão, Tom Cruise foi definitivamente, o único entre eles, que tenha construído ao longo dos anos uma sólida e reconhecida carreira no cinema.

O ator, que já trabalhou com diretores renomados, entre eles Neil Jordan, Steven Spielberg, Oliver Stone, Martin Scorcese e o mestre Stanley Kubrick é hoje um dos poucos produtores em Hollywood capaz de garantir o sucesso de uma franquia cinematográfica. Junta-se a ele nomes como o do já citado Spielberg, George Lucas e Jerry Bruckheimer.

Cruise ganhou reconhecimento internacional depois do sucesso de público e crítica do filme Top Gun – Asas Indomáveis, Top Gun (1986) no qual interpretava um piloto de caça da Marinha dos Estados Unidos que é selecionado para participar do curso da Navy Fighter Weapons School ou Top Gun. Lá se envolve com Charlie, interpretada por Kelly McGillis, instrutora na escola. De lá para cá, Tom Cruise foi colecionando sucessos comerciais em filmes de ação até culminar na franquia bilionária Missão Impossível, no qual além de atuar é também o produtor. A franquia já rendeu quatro filmes. E quando não está na pele do agente secreto Ethan Hunt, e entre o intervalo de um e outro filme de ação, Cruise tem se especializado nos filmes do gênero ficção científica. Desde Vanilla Sky, Vanilla Sky (2001) dirigido e escrito por Cameron Crowe e produzido e protagonizado por Cruise, foram quatro filmes do gênero.

É notório que o ator e produtor tenha tomado gosto pelos filmes do gênero. Um ano após seu último filme, Oblivion, Oblivion (2013), também uma ficção cientifica, chega aos cinemas  em lançamento mundial o mais recente filme de Tom Cruise, No Limite do Amanhã, Edge of Tomorrow (2014). Na nova produção, Cruise é Bill Cage, um relações públicas das Forças Armadas dos Estados Unidos, que é obrigado a ir para a linha de frente quando a Terra é tomada por alienígenas. Inexplicavelmente ele acaba preso no tempo, condenado a reviver esta data repetidamente. A cada morte e renascimento, Cage avança e, antecipando os acontecimentos, tem a chance de mudar o curso da batalha com o apoio da guerreira Rita Vrataski (Emily Blunt).  A direção ficou por conta de Doug Liman, que tem no currículo filmes como A Identidade Bourne, The Bourne Identity (2002) e Sr. & Sra. Smith, Mr. & Mrs. Smith (2005)

O novo trabalho de Cruise pode ser definido facilmente como uma mistura de O Feitiço do Tempo, Groundhog Day (1993) onde o personagem de Bill Murray encontrava-se preso no tempo, fadado a repetir o mesmo dia várias vezes, o híbrido entre humano e máquina do personagem de Matt Damon em Elysium, Elysium (2013) e um final que remete à interminável e tediosa batalha contra os sentinelas em Matrix Revolutions, The Matrix Revolutions (2003).

Novamente Cruise não acerta na sua escolha. No Limite do Amanhã aposta todas as suas fichas nos efeitos especiais e esquece de contar uma história pelo menos satisfatória. Com um roteiro  fraco, explicações teóricas inconsistentes sobre a razão pela qual o personagem de Cruise está preso no tempo e repleto de referências de outros filmes, como os já citados acima. E pasmem, a personagem de Emily Blunt é conhecida pelo nome de Full Metal Bitch, uma alusão ao título original do filme Full Metal Jacket de 1987 dirigido por Stanley Kubrick, que no Brasil recebeu o nome de Nascido para Matar. É por essas e outras que o filme não decola.

E Tom Cruise confirma mais uma vez que não consegue emplacar bons trabalhos como ator desde Nascido em 4 de Julho, Born on Fourth of July (1989), dirigido por Oliver Stone, filme que lhe valeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator daquele ano.

Se a carreira como ator demonstra sinais de cansaço, Cruise jamais poderá reclamar da carreira como produtor. Parceiros de longa data, Tom Cruise e a agente de atores Paula Wagner são sócios na Cruise/Wagner Productions desde 1993, e ambos já estão em produção para o quinto filme da série Missão Impossível e galinha dos ovos de ouro da dupla, que deverá ser lançado nos cinemas já no ano que vem. Além do novo filme da série, outros dois filmes já foram anunciados: o segundo filme de Jack Reacher com o título provisório de Jack Reacher: Never Go Back e a sequência do badalado filme dos anos 80 Top Gun. Por enquanto, Cruise não precisa se preocupar com o desempenho de sua carreira como ator, ao que parece, o emprego  como produtor está mais do que garantido.

(Pedro Giaquinto)

O cinema panfletário de Ken Loach

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Para a maioria dos estúdios, e por conseguinte, dos produtores da indústria cinematográfica, os filmes foram feitos para entreter e divertir, com um único e transparente objetivo: fazer dinheiro. Outros, ao contrário, usam o cinema como meio de expressar as incoerências e as mazelas sofridas diariamente pelas pessoas menos favorecidas da sociedade. Sem contar com orçamentos milionários repletos de efeitos especiais e sem a presença de atores hollywoodianos pagos com cachês exorbitantes, é sabido de antemão, que seus filmes serão projetados por no máximo uma ou duas semanas nos grandes complexos de salas de cinema, quando muito arrecadarão de volta nas bilheterias o que foi gasto para produzí-los. Ao final serão reduzidos à cine clubes e festivais de cinema, onde então encontrarão o fiel e apaixonado público dos filmes do gênero.

O britânico Ken Loach é um desses exemplos de militância no cinema. Um diretor que têm sempre como principal argumento em seus filmes as questões sociais, entre elas os direitos dos trabalhadores, a imigração, os sem-teto e os oprimidos por um governo autoritário.

Frequentador assíduo dos grandes festivais de cinema, Ken Loach tornou-se um cineasta premiado. Entre seus inúmeros prêmios destacam-se a Palma de Ouro de Melhor Filme para Ventos da Liberdade, The Wind that Shakes the Barely (2006), levou por três ocasiões, também no  Festival de Cannes, o Prêmio do Júri pelos filmes Agenda Secreta, Hidden Agenda (1990), Chuva de Pedras, Raining Stones (1993) e A Parte dos Anjos, Angel’s Share (2012), além de ter sido premiado em Fevereiro deste ano com o Urso de Ouro no Festival de Berlim pelo conjunto de sua obra.

Logo após ser bem recebido pela critica especializada no Festival de Cannes deste ano, e além de ter concorrido à Palma de Ouro de Melhor Filme, vencido pelo drama turco Wiinter Sleep (2014) do diretor Nuri Bilge Ceylan, entrou em cartaz no último final de semana na Irlanda e Reino Unido, o mais recente trabalho do aclamado cineasta britânico intitulado Jimmy’s Hall (2014), ainda sem título em português. O filme não tem previsão de estréia no Brasil.

Dessa vez, Loach conta a história de Jimmy Gralton (Barry Ward), líder comunista irlandês, que desafiou a Igreja Católica questionando sua censura à liberdade de expressão. Gralton gerou discórdia ao inaugurar um espaço para as pessoas debaterem, aprenderem e, sobretudo, dançarem. A trama retoma o período em que o rapaz retorna ao seu país natal, após ter passado dez anos em Nova York.

O cineasta britânico continua a parceira com o roteirista Paul Laverty, que atinge treze colaborações e teve início em 1996 com o filme Uma Canção para Carla, Carla’s Song (1996), que conta o relacionamento entre um motorista de ônibus escocês e uma nicaraguense que encontra-se exilada em Glasgow, Escócia.

Em seu recente trabalho, Loach retoma mais uma vez o tema que abrange o período de lutas entre o  governo britânico e os trabalhadores irlandeses, que reivindicavam a independência do país, descontentes com a administração britânica. O período de guerrilha compreende os anos 1919-21, época que marca também a formação do Exército Republicano Irlandês, mais conhecido como IRA.

Em Ventos da Liberdade, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, Loach já havia debatido sobre o período conturbado que viveu a República da Irlanda na luta por sua autonomia frente aos ingleses. No longa de 2006, o cineasta concentrou a trama na gerra civil entre as forças do império britânico que tentavam compelir de qualquer maneira o avanço das forças de independência liderada, pelo até então embrionário, IRA.  Já em Jimmy’s Hall, Loach retrata a história acerca de um indivíduo isolado dentro do período que compreende a guerra pela independência da Irlanda. Embora, tenha sido membro do IRA, o cineasta não mostra Jimmy como um homem que pega em armas e vai para o combate, e sim, como um orador, articulador, líder e porta-voz da luta contra a opressão do regime autoritário exercido pelo coroa inglesa e membros da igreja.

Ao que se sabe, isso segundo historiadores, Jimmy Gralton foi alvo de manobras do partido republicano o Fianna Fáil e também de elementos conservadores dentro de um IRA reacionário, existente no condado de Leitrim onde se transcorre a história, que desejavam sumariamente a deportação de Gralton para os Estados Unidos, devido suas tendências comunistas e os inúmeros inimigos que com o tempo foi colecionando.

Pelo visto, Loach não enveredou por essa direção, optando por não acrescentar outras informações sobre os hipotéticos, e porque não, reais motivos à respeito da deportação de Gralton. Talvez, se o fizesse, aprofundaria em demasia o contexto político da história do personagem, que sem dúvida alguma incorporaria questões de âmbito conspiratório à obra, o que evidentemente  descentralizaria a premissa dramática, que por si só já contém suficientes e verossímeis razões no que concerne ao destino final de Gralton.

No Festival de Cannes desse ano Ken Loach falou em aposentadoria. Esperamos que o cineasta britânico desista logo da idéia, e continue encantando com seu cinema panfletário, autêntico e questionado, que grita por liberdade e justiça, sem receio algum de se posicionar contra ou a favor.

(Pedro Giaquinto)