Em seu quinto filme como diretor, e com Woody Allen no elenco, John Torturro limita-se a copiar o estilo do cineasta nova-iorquino

Fading-Gigolo-featured

Woody Allen nunca foi uma unanimidade. A proporção de pessoas que detestam seu trabalho é, em muitos casos, maior do que as que o idolatram. Em contrapartida, sua legião de admiradores, elevam na maioria das vezes, o status do cineasta à gênio da sétima arte. Ame-o ou odeie-o, a verdade é que ninguém fica indiferente à obra do nova-iorquino.

A lista de atores e atrizes consagrados que já trabalharam com o cineasta norte-americano é imensa. Entre as atrizes pode-se destacar Diane Keaton, Penelope Cruz, Juliette Lewis e quem diria até Madonna, passando por Meryl Streep, Julia Roberts e as vencedoras do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e Principal – sob o comando do diretor – respectivamente Mira Sorvino por seu trabalho em Poderosa Afrodite, Mighty Aphrodite (1995) e Cate Blanchett por sua atuação no recente e último trabalho do diretor, Blue Jasmine, Blue Jasmine (2013). Entre os atores que marcaram presença nos filmes do cineasta estão Max Von Sydow, Michael Cane, Edward Norton, Leonardo di Caprio, Tim Roth, entre outros.

O número de produções como diretor e roteirista também é extensa: foram quase cinquenta filmes. Destes, pouco mais da metade, atuou sob sua própria direção. Já sob a direção de outros cineastas foram pouco mais de dez filmes entre os mais diferentes gêneros, incluindo a comédia de espionagem Cassino Royale, Casino Royale (1967), uma versão não oficial da série 007, a dublagem do personagem principal na animação produzida pela DreamWorks, FomiguinhaZ, Antz (1998), além de atuar em Rei Lear, King Lear (1987), sob a direção de Jean-Luc Godard, que foi um dos principais nomes do movimento artístico do cinema francês criado no final dos anos 50 e conhecido como Nouvelle Vague.

Woody Allen retorna aos cinemas como ator na comédia Amante à Domícilio, Fading Gigolo (2013), dirigida por John Torturro, que foi lançado no Brasil no início deste mês e estreiou no último final de semana na Irlanda e Reino Unido. O filme conta com o elenco de rostos conhecidos como Sharon Stone, Vanessa Paradis, Liev Schreiber e o próprio Torturo, que divide grande parte das cenas com Allen.

Murray (Woody Allen) é um senhor de idade que, durante uma conversa sobre sexo, com sua dermatologista a doutora Parker (Sharon Stone), diz que conhece um gigolô. Ao saber o quanto poderia ganhar como cafetão, ele tenta convencer seu amigo, Fioravante (John Turturro), a entrar para o ramo. Só que ele é um pacato homem que trabalha em uma floricultura e não quer se envolver em algo do tipo. Após muita insistência de Murray, Fioravanti topa fazer um programa com a doutora Parker, que está bastante insegura por ser a primeira vez que trai o marido. O sucesso do encontro faz com que a fama de Fioravanti corra entre as amigas da doutora, assim como ele mesmo passa a notar melhor as qualidades da nova profissão.

Este é o quinto filme dirigido por Torturro que também é roteirista. A estréia como diretor se deu com o filme Mac, Mac (1992), no qual Torturro foi premiado com a Cámera d’Or no Festival de Cannes do mesmo ano. O prêmio, criado em 1978, é dado para o melhor filme de diretor estreante. Logo após este, Torturro dirigiu outros três filmes: Illuminata, Illuminata (1998) que foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Sete anos depois, dirigiu Romance & Cigarros, Romance & Cigarretes (2005) e seu último trabalho como diretor foi o documentário Passione, Passione (2010), que tem como tema a musicalidade da região de Napolés, uma espécie de Buena Vista Social Club italiano.

Na verdade, Torturro é conhecido internacionalmente por sua carreira como ator. Atuou em mais 60 filmes e foi dirigido por grandes diretores, entres eles: Ethan e Joel Coen, Spike Lee, o também ator Robert Redford e o próprio Woody Allen, com quem trabalhou há quase trinta anos no filme Hannah e suas Irmãs, Hannah and Her Sisters (1986). Torturro ainda foi premiado com a Palma de Ouro de Melhor Interpretação Masculina no Festival de Cannes por sua atuação em Barton Fink – Delírios de Hollywood, Barton Fink (1991).

A versatilidade de Torturro como ator, pode ser conferida na grande diversidade de personagens na qual o ator sempre se dispôs a interpretar. Como diretor, Torturro preferiu realizar filmes que misturam equilibradamente a comédia e o romance.

Em Amante à Domícilio, Torturro pouco acrescentou ou nem ao menos tentou se arriscar em trazer qualquer novidade à sua obra como diretor. Manteve-se dentro do gênero que está mais habituado, e que certa maneira, lhe traz mais segurança, embora tenha adicionado um pouco mais de drama do que em suas obras anteriores. É uma pena que, em seu recente trabalho, Torturro tenha perdido a chance de realizar um filme seu.  Ao invés disso, realizou um filme com características de um filme de Woody Allen. A atmosfera, a trilha sonora e até a entrada dos créditos iniciais, remetem e muito, aos filmes do cineasta nova-iorquino. Talvez, se tivesse arriscado um pouco mais, poderia ter se livrado facilmente da armadilha que ele próprio criou. E Torturro ainda foi mais gentil, cedendo os melhores diálogos e piadas para o personagem de Allen. Talvez seja difícil ou praticamente impossível, não se deixar contagiar pela presença do cineasta. Por outro lado, Torturro realizou um filme mediano, que poderia ser muito pior sem a presença de Woody Allen, por quem de certa maneira vale  a ida ao cinema.

Agora, se a proposta do diretor foi a de prestar uma homenagem à Woody Allen, mesmo que o filme não tenha as neuroses ou a ácida veia cômica de Allen, ou mesmo com a ausência dos personagens repletos de fraquezas, sonhos e contradições sempre inseridos no universo do diretor, Torturro acertou em cheio, realizando dessa forma, guardada as devidas proporções, um filme de Woody Allen para Woody Allen.

(Pedro Giaquinto)

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