Roteirista de Drive não Empolga em sua Estréia como Diretor

TTFOJ

Não existem dúvidas o quanto é importante e gratificante para um escritor quando suas obras são reconhecidas pelo público e crítica, ou mesmo adaptadas por outros, seja para o cinema, teatro ou televisão.

A romancista norte-americana Patricia Highsmith (1921-1995), poderia se orgulhar das inúmeras adaptações de seus romances para o cinema. É evidente que a autora iniciou sua carreira em grande estilo. Seu primeiro romance Strangers on the Train (1950), foi adaptado para o cinema pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock. No Brasil, a adaptação recebeu o nome de Pacto Sinistro, Strangers on the Train (1951).

Outro romance de Highsmith que teve sua transcrição para as telas foi Edith’s Diary (1977). Em 1983, o diretor alemão Hans W. Geibendorfer foi o responsável pela adaptação do romance   homônimo para o cinema. Outro alemão que também se aventurou pelo universo da escritora foi o famoso diretor Win Wenders de clássicos como Paris, Texas, Paris, Texas (1984) e Asas do Desejo, Wings of Desire (1987), ambos premiados no Festival de Cannes em seus respectivos anos. Foi com título de O Amigo Americano, The American Friend (1977), que Win Wenders deu nome à sua livre adaptação do livro Ripley’s Game (1974). O mesmo romance também foi adpatado pela diretora italiana Liliana Cavani, que em português recebeu o nome de O Retorno do Talentoso Ripley, Ripley’s Game (2002), que teve o ator John Malkovich como Ripley. Sem dúvida alguma, o romance da escritora adaptado para a telona, que certamente tenha recebido maior visibilidade dentro da obra da romancista tenha sido O Talentoso Mr. Ripley, The Talented Mr. Ripley (1999) dirigido por Anthony Minghella e que contava com um elenco de peso com Jude Law, Cate Blanchett, Gwyneth Paltrow, Philip Seymour Hoffman e Matt Damon como Mr. Ripley. O filme de Minghella é conhecido como o remake de uma outra adaptação para o cinema do mesmo livro, que recebeu o nome de O Sol por Testemunha, Plein Soleil (1960), do francês René Clément e que tinha Alain Delon interpretando o personagem título.

No último final de semana estreiou na Irlanda e Reino Unido uma nova adaptação da obra de Highsmith. Dessa vez, o romance adaptado foi escrito pela romancista em 1964 com o título de Two Faces of January. O filme que leva o mesmo nome do livro, foi dirigido pelo estreante na direção de longas-metragens, Hossein Amini. Não se pode dizer que Amini seja de fato um estreante. O cineasta construiu uma sólida e premiada carreira como roteirista, transitando  por diversos gêneros, que vão desde adaptações de romances como Jude, the Obscure (1895) do britânico Thomas Hardy, dirigido pelo também britânico Michael Winterbottom com o título Paixão Proibida, Jude (1996), passando pelo empolgante Drive, Drive (2011), que foi muito elogiado no Festival de Cannes do mesmo ano, vencendo o prêmio de melhor diretor para o dinamarquês Nicolas Winding Refn e até filmes do gênero fantasia como Branca de Neve e o Caçador, Snow White and the Huntsman (2012) e o recente 47 Ronins, 47 Ronin (2013) estrelado por Keanu Reeves. Como roteirista, Amini ainda recebeu uma indicação ao Oscar por sua adaptação do romance de Henry James para o filme Asas do Amor, The Wings of the Dove (1997).

Além de dirigir, Amini também roteirizou a adaptação de Two Faces of January. O filme que é ambientado nos anos 60 conta a história de um casal de americanos, o falsificador Chester MacFarland (Viggo Mortensen) e sua esposa Colette MacFarland (Kirsten Dunst), que estão de férias em Atenas e conhecem Rydal (Oscar Isaac) um americano fluente em grego que trabalha como guia turístico. Encantado pela beleza de Colette e impressionado pela riqueza e sofisticação de Chester, Rydal aceita prontamente o convite para jantar com o casal. No entanto, nada é o que parece. Logo após o jantar, Chester assassina acidentalmente um policial que estava o investigando.  Para se livrar do corpo e fugir do país, Chester vai contar com a ajuda de sua esposa e Rydal. O crescente envolvimento entre Rydal e Colette, aumentam a paranóia e o ciúmes de Chester, transformando a recente amizade entre os dois homens numa batalha que acarretará graves conseqüências.

Incontestavelmente Amini não teve um trabalho fácil na sua estréia. Quando se fala na obra de Highsmith é impossível não citar o personagem Tom Ripley, que protagonizou cinco livros dentro de sua obra.

Embora, cercado por um elenco de protagonistas experientes e o mérito de ter fugido da tentação em adaptar um dos cinco romances com o personagem Tom Ripley, o diretor e roteirista escolheu adaptar um livro que não traz um personagem multifacetado, complexo e dinâmico no que diz respeito à sua caracterização psicológica como Ripley. Ripley é inteligente, elegante, astuto, cínico, cruel e obstinado ao mesmo tempo. Pode ser amável quando necessário ou um assassino ser for preciso. É uma mistura explosiva dos mais intempestivos sentimentos humanos.

Ainda assim, o falsificador Chester MacFarland e o guia turístico Rydal, vividos por Mortensen e Isaac respectivamente, trazem juntos alguns resquícios de Tom Ripley, que se acentuam de forma mais evidente na medida em que ambos encontram, cada qual à sua maneira, uma oportunidade de prejudicar o outro, e dessa forma, se livrarem do perigo, isentando-se de qualquer arrependimento ou culpa. MacFarland, à exemplo de Ripley, é um assassino, embora seja, de maneira acidental. Ripley premedita. Rydal é um oportunista, que se aproveita das situações na medida em que elas se sucedem. Já Tom Ripley, constrói de forma fria e calculista suas ações, onde nada é por acaso.

Dessa maneira, Amini dialoga a todo instante com os dois personagens, que vivem em uma constante troca de poderes, onde um necessita do outro para continuar o seu percurso. As seqüências em que Rydal auxilia o casal MacFarland na confecção dos passaportes falsos e de quando Rydal precisa de Chester para enganar o oficial da imigração, são exemplos claros dessa ajuda mútua, construída única e exclusivamente, para proteger ambos dos transtornos da longa e tensa jornada.

Ao final, Amini realizou o seu trabalho. Se este não tenha resultado em nenhuma novidade para o gênero, que não desabe em seus ombros a culpa para tal. A verdade é que Tom Ripley bastava-se por si só.

No Brasil, o filme ainda não tem data de lançamento.

(Pedro Giaquinto)

 

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