A Última Obra-Prima de Hayao Miyazaki

Jiro and paper airplane_out

Mangá e anime são os primeiros nomes que nos vêem à cabeça quando o assunto é animação japonesa. O primeiro, nada mais é, do que uma palavra usada para designar as histórias em quadrinhos japonesas. Já o anime é usado pelos japoneses para denominar qualquer tipo de animação, seja ela japonesa ou não. Para nós, ocidentais, a palavra se refere aos desenhos animados vindos do Japão.

As animações japonesas são caracterizadas pelo uso de enquadramentos ousados e abordagem de temas variados, bem como, personagens peculiares que se destacam por seus olhos geralmente grandes, redondos ou rasgados.

Já quando se pensa nas animações japonesas, que se transformaram em filmes de longa-metragem para o cinema, o primeiro nome, sem dúvida alguma, é a animação ciberpunk Akira, Akira (1988), seguida pela também ciberpunk, O Fantasma do Futuro, Ghost in the Shell (1995), tida como uma das principais influências para a trilogia Matrix.

Uma nova animação japonesa chegou aos cinemas da Irlanda e do Reino Unido no último final semana. E vale acrescentar que não é sempre, que nós brasileiros, temos que aguardar meses para assistir a um filme que já havia sido lançado nos Estados Unidos ou Europa. Às vezes, a agenda de lançamentos dos filmes para o cinema faz o caminho inverso e somos premiados com estréias antecipadas frente à outras nações. Esse é o caso do novo longa-metragem de animação do diretor japonês Hayao Miyazaki, Vidas ao Vento, The Wind Rises (2013). No Brasil, o filme foi lançado em circuito comercial no final do mês de Fevereiro, embora, no ano passado, já havia sido apresentado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Vidas ao Vento narra a história de Jiro Horikoshi, o designer que criou o famoso avião de combate japonês Mitsubishi A6M Zero, um dos mais mortíferos usados na Segunda Guerra Mundial. O longa acompanha a vida de Horikoshi, desde a infância do engenheiro, quando já sonhava em criar aviões, a sua mudança de uma pequena cidade do interior para Tóquio onde aprimorou os estudos, passando pelo grande terremoto que devastou a capital japonesa em 1923, sua paixão por Naoko, uma jovem que contraiu tuberculose, os tempos difíceis que antecederam a Segunda Guerra Mundial e os questionamentos sobre sua participação na guerra, mesmo que indiretamente.

Hayao Miyazaki, mais conhecido pela obra-prima A Viagem de Chihiro, Spirited Away (2001), que lhe valeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2002, além de faturar o Oscar de Melhor Filme de Animação em 2003, retorna em grande estilo para a telona, após cinco anos desde seu último longa-metragem Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar, Ponyo on the Cliff by the Sea (2008).

Dessa vez, Miyazaki realizou o filme mais adulto de toda sua carreira. Não que os seus outros filmes fossem voltados somente para o público infantil, o que na verdade nunca foram. Em toda a sua obra, o cineasta sempre flertou com o universo onírico, deixando solta a imaginação, desprendendo os seus personagens da realidade absoluta, numa mistura perturbadora entre sonho e realidade, que pode ser claramente percebida em A Viagem de Chihiro.

Em Vidas ao Vento, Miyazaki abdicou por completo do mundo fantástico e colocou seus personagens dentro de um contexto histórico, marcado por tragédias e pela brutalidade contra a humanidade, que se instalou entre o período das duas grandes guerras mundiais.

Embora, tenha abandonado o universo da fantasia, Miyazaki manteve os temas recorrentes de sua obra, entre eles a relação da humanidade com a natureza e tecnologia e a dificuldade de manter uma ética pacifista num mundo caótico, onde a indústria bélica se tornou algo extremamente rentável e no qual as vendas do setor alcançam ano a ano cifras bilionárias. Outra característica marcante na obra o diretor japonês são os protagonistas, que na maioria das vezes são retratados como meninas ou jovens mulheres fortes e independentes. Agora em seu novo filme o protagonista de Miyazaki é um homem.

Evidentemente que essas mudanças em nada prejudicaram a essência da obra do cineasta, ao contrário, evidenciaram ainda mais sua genialidade na composição de uma história linear, sem escapes para o mundo fantástico. Quando o faz, limita-se apenas aos devaneios do personagem principal nos sonhos relacionados ao seu desejo de criar aviões e os encontros com o engenheiro aeronáutico, o italiano Giovanni Battista Caproni (1886-1957).

Apesar de Vidas ao Vento ser uma animação, torna-se extremamente fácil de se surpreender, isso em inúmeros momentos durante a projeção, imaginando atores reais interpretando os personagens animados de Miyazaki. A movimentação de câmera, a trilha sonora envolvente criada por Joe Hisaishi, assíduo colaborador nos trabalhos de Miyazaki, os planos longos e o romance que premeiam a história do designer japonês, nos remetem claramente às grandiosas super produções americanas contextualizadas nos tempos de guerra, que podem ser encontrados em filmes do gênero drama épico/romance como em Doutor Jivago, Doctor Zhivago (1965) dirigido pelo célebre cineasta David Lean ou até mesmo na obra-prima dirigida por Vittorio De Sica, Os Girassóis da Rússia, I Girasoli (1970), que conta a história de uma fiel esposa que procura insistentemente por seu marido no final da guerra.

Desse modo, Miyazaki atingi em seu recente trabalho o ápice de uma obra irretocável. Há cerca de cinco anos, logo após seu último filme, o cineasta havia declarado que se aposentaria da direção dos longas-metragens de animação. Retornou cinco anos depois com esta obra-prima. Esperamos que ele seja um homem que não cumpra com suas promessas ou pelo menos nos dê como presente, mesmo que seja de cinco em cinco anos, filmes brilhantes, sensíveis e inesquecíveis, como sempre será a obra do mestre Miyazaki.

(Pedro Giaquinto) 

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