Uma Estréia Sem Sustos

The-Sea

O cinema na Irlanda se notabilizou por revelar grandes talentos para a indústria cinematográfica de Hollywood. Não só atores, atrizes ou diretores, mas também grandes produções foram rodadas nas belissímas paisagens irlandesas, entre elas, destacam-se filmes como Coração Valente, Braveheart (1995) e O Resgate do Soldado Ryan, Saving Private Ryan (1998).

Entre os atores e atrizes, que se destacaram internacionalmente, vale citar Daniel Day Lewis, único ator que conquistou três vezes o Oscar de Melhor Ator e estrelou filmes como Meu Pé Esquerdo, My Left Foot (1989), Gangues de Nova York, Gangs of New York (2002) e recentemente Lincoln, Lincoln (2012). Já Maureen O’Hara, a bela irlandesa ruiva e de olhos verdes, hoje com 93 anos, nascida no subúrbio de Dublin, trabalhou com grandes diretores entre eles Alfred Hitchcock e John Ford. Entre os inúmeros filmes em que trabalhou  estão o faroeste Rio Bravo, Rio Grande (1950) e Depois do Vendaval, The Quiet Man (1952) ambos dirigidos por John Ford e contracenados com seu amigo de longa data, John Wayne. Entres os diretores Neil Jordan e Jim Sheridan ocupam o topo da lista dos cineastas irlandeses que atingiram reconhecimento internacional. Jordan realizou filmes como Nó na Garganta, The Butcher Boy (1997) e Café da Manhã em Plutão, Breakfast on Pluto (2005). Já Sheridan, do excelente e já citado acima, Meu Pé Esquerdo, dirigiu os célebres e imperdíveis Em Nome do Pai, In the Name of the Father e O Lutador, The Boxer (1997).

Com exceção de O Guarda, The Guard (2011), tido como o maior sucesso de bilheteria na Irlanda e estrelado por Brendan Gleeson, atualmente o grande nome do cinema da terra dos Leprechauns, o cinema irlandês não têm lançado grandes obras e nem ao menos novos talentos que possam chamar a atenção da critica e do público mundo afora.

Recentemente estreiou nas salas de cinema da Irlanda, O Mar, The Sea (2013), o primeiro longa-metragem do diretor Stephen Brown. O filme que ainda não tem previsão de estréia para o Brasil, foi adpatado do romance de mesmo nome, escrito por Jonh Banville vencedor do Man Booker Prize em 2005, e que também assina a adaptação de sua obra para o cinema. Engana-se quem pensa que Baville seja somente um novato no cinema. O escritor também roterizou The Last September, The Last September (1999) e o aclamado sucesso junto a critica Albert Nobbs (2011), no qual dividiu os créditos da adaptação da novela de George Moore “The Singular Life of Albert Nobbs“, com Gabriella Prekop e Glenn Close que interpreta magistralmente o personagem título.

Já o diretor Stephen Brown, que se aventura pela primeira vez em um filme de longa duração, tem no currículo somente dois curtas-metragens, The Breathing (1992) e The Curious (1995). Como a grande maioria dos diretores de cinema, Brown tem um trabalho voltado para o mercado publicitário. Realizou diversas campanhas para grandes supermercados ingleses como Tesco e Marks Spencer, além de realizar vídeos cooporativos.

O Mar narra a história de Max Morden, que após a morte de sua mulher, retorna para o vilarejo litorâneo onde viveu sua infância, tentando encontrar a tranquilidade necessária para terminar seu livro sobre o pintor Pierre Bonnard, mas o vilarejo provoca memórias de quando passava o verão com a família Grace, as crianças Myles e Chloe, seus pais Connie e Carlo e a governanta Rose, enquanto a morte de sua mulher continua a assombrá-lo.

Brown retoma o tema dos conflitos e problemas existentes nos relacionamentos humanos, que já havia trabalho em seus dois curtas-metragens. O filme é todo estruturado dentro da linguagem de flashbacks, que neste caso, não tem somente a função de evocar o passado do personagem, mas misturar e confundir o momento presente com as reminiscências dos acontecimentos do passado, o que no início poderá deixar o espectador um pouco desorientado. O emprego do flashback, quando bem utilizado traz dinamismo para filme e Brown soube como usá-lo, transmitindo a informação necessária ao entendimento e a progressão narrativa, reforçando de maneira equilibrada os pontos de vista do personagem e introduzindo fatos novos, relevantes à trama. Diferente de outros filmes, quando os personagens retornam para seu lugar de origem e lá tentam encontrar respostas no passado para os seus problemas no presente, o personagem principal no longa de Brown não faz esse retorno com este propósito. As lembranças veêm até ele, e se entrelaçam com o momento presente e o passado recente, que a todo instante é revisitado pela morte da mulher.

O elenco conta com o ator irlandês, nascido em Belfast, Irlanda do Norte, Ciarán Hinds que interpreta Max Morden. Hinds ficou conhecido por seus trabalhos em filmes como Munique, Munich (2005) dirigido por Steven Spielberg e Sangue Negro, There Will Be Blood (2007),  filme que valeu o Oscar de Melhor Ator para Daniel Day Lewis. O elenco conta ainda com a participação da renomada atriz francesa Charlote Rampling, que tem na bagagem trabalhos como Os Deuses Malditos, La Caduta Degli Dei (1969), uma das obras-primas antiguerra e antinazista realizada pelo mestre do cinema italiano Luchino Visconti. Trabalhou também com cineasta japonês Nagisa Oshima, em Max, Meu Amor, Max, Mon Amour (1986) filme no qual sua personagem se apaixona por um chimpanzé, provocando na época do seu lançamento, certa polêmica entre o público e crítica, além de ter protagonizado dois filmes do diretor francês François Ozon, Sob a Areia, Sou le Sable (2000) e o acima da média À Beira da Piscina, Swimming Pool (2003).

Nem mesmo a direção segura, apesar do peso da estréia, um elenco de qualidade e uma história que se não é brilhante, não deixa de ser até certo ponto interessante, pela maneira na qual Brown faz uso dos flashbacks, foram suficientes para salvar o filme, que aos poucos, ao longo da projeção, vai se transformando em lugar comum, e onde a força narrativa se perde gradativamente.

E se Brown alcançará sucesso internacional, como aconteceu com os seus compatriotas, só o tempo e mais alguns filmes dirão. De qualquer maneira, Brown fez a lição de casa e obteve uma estréia dentro da média.

(Pedro Giaquinto)

Anúncios

Leave a comment

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s