Arquivo mensal: maio 2014

Em seu quinto filme como diretor, e com Woody Allen no elenco, John Torturro limita-se a copiar o estilo do cineasta nova-iorquino

Fading-Gigolo-featured

Woody Allen nunca foi uma unanimidade. A proporção de pessoas que detestam seu trabalho é, em muitos casos, maior do que as que o idolatram. Em contrapartida, sua legião de admiradores, elevam na maioria das vezes, o status do cineasta à gênio da sétima arte. Ame-o ou odeie-o, a verdade é que ninguém fica indiferente à obra do nova-iorquino.

A lista de atores e atrizes consagrados que já trabalharam com o cineasta norte-americano é imensa. Entre as atrizes pode-se destacar Diane Keaton, Penelope Cruz, Juliette Lewis e quem diria até Madonna, passando por Meryl Streep, Julia Roberts e as vencedoras do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e Principal – sob o comando do diretor – respectivamente Mira Sorvino por seu trabalho em Poderosa Afrodite, Mighty Aphrodite (1995) e Cate Blanchett por sua atuação no recente e último trabalho do diretor, Blue Jasmine, Blue Jasmine (2013). Entre os atores que marcaram presença nos filmes do cineasta estão Max Von Sydow, Michael Cane, Edward Norton, Leonardo di Caprio, Tim Roth, entre outros.

O número de produções como diretor e roteirista também é extensa: foram quase cinquenta filmes. Destes, pouco mais da metade, atuou sob sua própria direção. Já sob a direção de outros cineastas foram pouco mais de dez filmes entre os mais diferentes gêneros, incluindo a comédia de espionagem Cassino Royale, Casino Royale (1967), uma versão não oficial da série 007, a dublagem do personagem principal na animação produzida pela DreamWorks, FomiguinhaZ, Antz (1998), além de atuar em Rei Lear, King Lear (1987), sob a direção de Jean-Luc Godard, que foi um dos principais nomes do movimento artístico do cinema francês criado no final dos anos 50 e conhecido como Nouvelle Vague.

Woody Allen retorna aos cinemas como ator na comédia Amante à Domícilio, Fading Gigolo (2013), dirigida por John Torturro, que foi lançado no Brasil no início deste mês e estreiou no último final de semana na Irlanda e Reino Unido. O filme conta com o elenco de rostos conhecidos como Sharon Stone, Vanessa Paradis, Liev Schreiber e o próprio Torturo, que divide grande parte das cenas com Allen.

Murray (Woody Allen) é um senhor de idade que, durante uma conversa sobre sexo, com sua dermatologista a doutora Parker (Sharon Stone), diz que conhece um gigolô. Ao saber o quanto poderia ganhar como cafetão, ele tenta convencer seu amigo, Fioravante (John Turturro), a entrar para o ramo. Só que ele é um pacato homem que trabalha em uma floricultura e não quer se envolver em algo do tipo. Após muita insistência de Murray, Fioravanti topa fazer um programa com a doutora Parker, que está bastante insegura por ser a primeira vez que trai o marido. O sucesso do encontro faz com que a fama de Fioravanti corra entre as amigas da doutora, assim como ele mesmo passa a notar melhor as qualidades da nova profissão.

Este é o quinto filme dirigido por Torturro que também é roteirista. A estréia como diretor se deu com o filme Mac, Mac (1992), no qual Torturro foi premiado com a Cámera d’Or no Festival de Cannes do mesmo ano. O prêmio, criado em 1978, é dado para o melhor filme de diretor estreante. Logo após este, Torturro dirigiu outros três filmes: Illuminata, Illuminata (1998) que foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Sete anos depois, dirigiu Romance & Cigarros, Romance & Cigarretes (2005) e seu último trabalho como diretor foi o documentário Passione, Passione (2010), que tem como tema a musicalidade da região de Napolés, uma espécie de Buena Vista Social Club italiano.

Na verdade, Torturro é conhecido internacionalmente por sua carreira como ator. Atuou em mais 60 filmes e foi dirigido por grandes diretores, entres eles: Ethan e Joel Coen, Spike Lee, o também ator Robert Redford e o próprio Woody Allen, com quem trabalhou há quase trinta anos no filme Hannah e suas Irmãs, Hannah and Her Sisters (1986). Torturro ainda foi premiado com a Palma de Ouro de Melhor Interpretação Masculina no Festival de Cannes por sua atuação em Barton Fink – Delírios de Hollywood, Barton Fink (1991).

A versatilidade de Torturro como ator, pode ser conferida na grande diversidade de personagens na qual o ator sempre se dispôs a interpretar. Como diretor, Torturro preferiu realizar filmes que misturam equilibradamente a comédia e o romance.

Em Amante à Domícilio, Torturro pouco acrescentou ou nem ao menos tentou se arriscar em trazer qualquer novidade à sua obra como diretor. Manteve-se dentro do gênero que está mais habituado, e que certa maneira, lhe traz mais segurança, embora tenha adicionado um pouco mais de drama do que em suas obras anteriores. É uma pena que, em seu recente trabalho, Torturro tenha perdido a chance de realizar um filme seu.  Ao invés disso, realizou um filme com características de um filme de Woody Allen. A atmosfera, a trilha sonora e até a entrada dos créditos iniciais, remetem e muito, aos filmes do cineasta nova-iorquino. Talvez, se tivesse arriscado um pouco mais, poderia ter se livrado facilmente da armadilha que ele próprio criou. E Torturro ainda foi mais gentil, cedendo os melhores diálogos e piadas para o personagem de Allen. Talvez seja difícil ou praticamente impossível, não se deixar contagiar pela presença do cineasta. Por outro lado, Torturro realizou um filme mediano, que poderia ser muito pior sem a presença de Woody Allen, por quem de certa maneira vale  a ida ao cinema.

Agora, se a proposta do diretor foi a de prestar uma homenagem à Woody Allen, mesmo que o filme não tenha as neuroses ou a ácida veia cômica de Allen, ou mesmo com a ausência dos personagens repletos de fraquezas, sonhos e contradições sempre inseridos no universo do diretor, Torturro acertou em cheio, realizando dessa forma, guardada as devidas proporções, um filme de Woody Allen para Woody Allen.

(Pedro Giaquinto)

Roteirista de Drive não Empolga em sua Estréia como Diretor

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Não existem dúvidas o quanto é importante e gratificante para um escritor quando suas obras são reconhecidas pelo público e crítica, ou mesmo adaptadas por outros, seja para o cinema, teatro ou televisão.

A romancista norte-americana Patricia Highsmith (1921-1995), poderia se orgulhar das inúmeras adaptações de seus romances para o cinema. É evidente que a autora iniciou sua carreira em grande estilo. Seu primeiro romance Strangers on the Train (1950), foi adaptado para o cinema pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock. No Brasil, a adaptação recebeu o nome de Pacto Sinistro, Strangers on the Train (1951).

Outro romance de Highsmith que teve sua transcrição para as telas foi Edith’s Diary (1977). Em 1983, o diretor alemão Hans W. Geibendorfer foi o responsável pela adaptação do romance   homônimo para o cinema. Outro alemão que também se aventurou pelo universo da escritora foi o famoso diretor Win Wenders de clássicos como Paris, Texas, Paris, Texas (1984) e Asas do Desejo, Wings of Desire (1987), ambos premiados no Festival de Cannes em seus respectivos anos. Foi com título de O Amigo Americano, The American Friend (1977), que Win Wenders deu nome à sua livre adaptação do livro Ripley’s Game (1974). O mesmo romance também foi adpatado pela diretora italiana Liliana Cavani, que em português recebeu o nome de O Retorno do Talentoso Ripley, Ripley’s Game (2002), que teve o ator John Malkovich como Ripley. Sem dúvida alguma, o romance da escritora adaptado para a telona, que certamente tenha recebido maior visibilidade dentro da obra da romancista tenha sido O Talentoso Mr. Ripley, The Talented Mr. Ripley (1999) dirigido por Anthony Minghella e que contava com um elenco de peso com Jude Law, Cate Blanchett, Gwyneth Paltrow, Philip Seymour Hoffman e Matt Damon como Mr. Ripley. O filme de Minghella é conhecido como o remake de uma outra adaptação para o cinema do mesmo livro, que recebeu o nome de O Sol por Testemunha, Plein Soleil (1960), do francês René Clément e que tinha Alain Delon interpretando o personagem título.

No último final de semana estreiou na Irlanda e Reino Unido uma nova adaptação da obra de Highsmith. Dessa vez, o romance adaptado foi escrito pela romancista em 1964 com o título de Two Faces of January. O filme que leva o mesmo nome do livro, foi dirigido pelo estreante na direção de longas-metragens, Hossein Amini. Não se pode dizer que Amini seja de fato um estreante. O cineasta construiu uma sólida e premiada carreira como roteirista, transitando  por diversos gêneros, que vão desde adaptações de romances como Jude, the Obscure (1895) do britânico Thomas Hardy, dirigido pelo também britânico Michael Winterbottom com o título Paixão Proibida, Jude (1996), passando pelo empolgante Drive, Drive (2011), que foi muito elogiado no Festival de Cannes do mesmo ano, vencendo o prêmio de melhor diretor para o dinamarquês Nicolas Winding Refn e até filmes do gênero fantasia como Branca de Neve e o Caçador, Snow White and the Huntsman (2012) e o recente 47 Ronins, 47 Ronin (2013) estrelado por Keanu Reeves. Como roteirista, Amini ainda recebeu uma indicação ao Oscar por sua adaptação do romance de Henry James para o filme Asas do Amor, The Wings of the Dove (1997).

Além de dirigir, Amini também roteirizou a adaptação de Two Faces of January. O filme que é ambientado nos anos 60 conta a história de um casal de americanos, o falsificador Chester MacFarland (Viggo Mortensen) e sua esposa Colette MacFarland (Kirsten Dunst), que estão de férias em Atenas e conhecem Rydal (Oscar Isaac) um americano fluente em grego que trabalha como guia turístico. Encantado pela beleza de Colette e impressionado pela riqueza e sofisticação de Chester, Rydal aceita prontamente o convite para jantar com o casal. No entanto, nada é o que parece. Logo após o jantar, Chester assassina acidentalmente um policial que estava o investigando.  Para se livrar do corpo e fugir do país, Chester vai contar com a ajuda de sua esposa e Rydal. O crescente envolvimento entre Rydal e Colette, aumentam a paranóia e o ciúmes de Chester, transformando a recente amizade entre os dois homens numa batalha que acarretará graves conseqüências.

Incontestavelmente Amini não teve um trabalho fácil na sua estréia. Quando se fala na obra de Highsmith é impossível não citar o personagem Tom Ripley, que protagonizou cinco livros dentro de sua obra.

Embora, cercado por um elenco de protagonistas experientes e o mérito de ter fugido da tentação em adaptar um dos cinco romances com o personagem Tom Ripley, o diretor e roteirista escolheu adaptar um livro que não traz um personagem multifacetado, complexo e dinâmico no que diz respeito à sua caracterização psicológica como Ripley. Ripley é inteligente, elegante, astuto, cínico, cruel e obstinado ao mesmo tempo. Pode ser amável quando necessário ou um assassino ser for preciso. É uma mistura explosiva dos mais intempestivos sentimentos humanos.

Ainda assim, o falsificador Chester MacFarland e o guia turístico Rydal, vividos por Mortensen e Isaac respectivamente, trazem juntos alguns resquícios de Tom Ripley, que se acentuam de forma mais evidente na medida em que ambos encontram, cada qual à sua maneira, uma oportunidade de prejudicar o outro, e dessa forma, se livrarem do perigo, isentando-se de qualquer arrependimento ou culpa. MacFarland, à exemplo de Ripley, é um assassino, embora seja, de maneira acidental. Ripley premedita. Rydal é um oportunista, que se aproveita das situações na medida em que elas se sucedem. Já Tom Ripley, constrói de forma fria e calculista suas ações, onde nada é por acaso.

Dessa maneira, Amini dialoga a todo instante com os dois personagens, que vivem em uma constante troca de poderes, onde um necessita do outro para continuar o seu percurso. As seqüências em que Rydal auxilia o casal MacFarland na confecção dos passaportes falsos e de quando Rydal precisa de Chester para enganar o oficial da imigração, são exemplos claros dessa ajuda mútua, construída única e exclusivamente, para proteger ambos dos transtornos da longa e tensa jornada.

Ao final, Amini realizou o seu trabalho. Se este não tenha resultado em nenhuma novidade para o gênero, que não desabe em seus ombros a culpa para tal. A verdade é que Tom Ripley bastava-se por si só.

No Brasil, o filme ainda não tem data de lançamento.

(Pedro Giaquinto)

 

A Última Obra-Prima de Hayao Miyazaki

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Mangá e anime são os primeiros nomes que nos vêem à cabeça quando o assunto é animação japonesa. O primeiro, nada mais é, do que uma palavra usada para designar as histórias em quadrinhos japonesas. Já o anime é usado pelos japoneses para denominar qualquer tipo de animação, seja ela japonesa ou não. Para nós, ocidentais, a palavra se refere aos desenhos animados vindos do Japão.

As animações japonesas são caracterizadas pelo uso de enquadramentos ousados e abordagem de temas variados, bem como, personagens peculiares que se destacam por seus olhos geralmente grandes, redondos ou rasgados.

Já quando se pensa nas animações japonesas, que se transformaram em filmes de longa-metragem para o cinema, o primeiro nome, sem dúvida alguma, é a animação ciberpunk Akira, Akira (1988), seguida pela também ciberpunk, O Fantasma do Futuro, Ghost in the Shell (1995), tida como uma das principais influências para a trilogia Matrix.

Uma nova animação japonesa chegou aos cinemas da Irlanda e do Reino Unido no último final semana. E vale acrescentar que não é sempre, que nós brasileiros, temos que aguardar meses para assistir a um filme que já havia sido lançado nos Estados Unidos ou Europa. Às vezes, a agenda de lançamentos dos filmes para o cinema faz o caminho inverso e somos premiados com estréias antecipadas frente à outras nações. Esse é o caso do novo longa-metragem de animação do diretor japonês Hayao Miyazaki, Vidas ao Vento, The Wind Rises (2013). No Brasil, o filme foi lançado em circuito comercial no final do mês de Fevereiro, embora, no ano passado, já havia sido apresentado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Vidas ao Vento narra a história de Jiro Horikoshi, o designer que criou o famoso avião de combate japonês Mitsubishi A6M Zero, um dos mais mortíferos usados na Segunda Guerra Mundial. O longa acompanha a vida de Horikoshi, desde a infância do engenheiro, quando já sonhava em criar aviões, a sua mudança de uma pequena cidade do interior para Tóquio onde aprimorou os estudos, passando pelo grande terremoto que devastou a capital japonesa em 1923, sua paixão por Naoko, uma jovem que contraiu tuberculose, os tempos difíceis que antecederam a Segunda Guerra Mundial e os questionamentos sobre sua participação na guerra, mesmo que indiretamente.

Hayao Miyazaki, mais conhecido pela obra-prima A Viagem de Chihiro, Spirited Away (2001), que lhe valeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2002, além de faturar o Oscar de Melhor Filme de Animação em 2003, retorna em grande estilo para a telona, após cinco anos desde seu último longa-metragem Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar, Ponyo on the Cliff by the Sea (2008).

Dessa vez, Miyazaki realizou o filme mais adulto de toda sua carreira. Não que os seus outros filmes fossem voltados somente para o público infantil, o que na verdade nunca foram. Em toda a sua obra, o cineasta sempre flertou com o universo onírico, deixando solta a imaginação, desprendendo os seus personagens da realidade absoluta, numa mistura perturbadora entre sonho e realidade, que pode ser claramente percebida em A Viagem de Chihiro.

Em Vidas ao Vento, Miyazaki abdicou por completo do mundo fantástico e colocou seus personagens dentro de um contexto histórico, marcado por tragédias e pela brutalidade contra a humanidade, que se instalou entre o período das duas grandes guerras mundiais.

Embora, tenha abandonado o universo da fantasia, Miyazaki manteve os temas recorrentes de sua obra, entre eles a relação da humanidade com a natureza e tecnologia e a dificuldade de manter uma ética pacifista num mundo caótico, onde a indústria bélica se tornou algo extremamente rentável e no qual as vendas do setor alcançam ano a ano cifras bilionárias. Outra característica marcante na obra o diretor japonês são os protagonistas, que na maioria das vezes são retratados como meninas ou jovens mulheres fortes e independentes. Agora em seu novo filme o protagonista de Miyazaki é um homem.

Evidentemente que essas mudanças em nada prejudicaram a essência da obra do cineasta, ao contrário, evidenciaram ainda mais sua genialidade na composição de uma história linear, sem escapes para o mundo fantástico. Quando o faz, limita-se apenas aos devaneios do personagem principal nos sonhos relacionados ao seu desejo de criar aviões e os encontros com o engenheiro aeronáutico, o italiano Giovanni Battista Caproni (1886-1957).

Apesar de Vidas ao Vento ser uma animação, torna-se extremamente fácil de se surpreender, isso em inúmeros momentos durante a projeção, imaginando atores reais interpretando os personagens animados de Miyazaki. A movimentação de câmera, a trilha sonora envolvente criada por Joe Hisaishi, assíduo colaborador nos trabalhos de Miyazaki, os planos longos e o romance que premeiam a história do designer japonês, nos remetem claramente às grandiosas super produções americanas contextualizadas nos tempos de guerra, que podem ser encontrados em filmes do gênero drama épico/romance como em Doutor Jivago, Doctor Zhivago (1965) dirigido pelo célebre cineasta David Lean ou até mesmo na obra-prima dirigida por Vittorio De Sica, Os Girassóis da Rússia, I Girasoli (1970), que conta a história de uma fiel esposa que procura insistentemente por seu marido no final da guerra.

Desse modo, Miyazaki atingi em seu recente trabalho o ápice de uma obra irretocável. Há cerca de cinco anos, logo após seu último filme, o cineasta havia declarado que se aposentaria da direção dos longas-metragens de animação. Retornou cinco anos depois com esta obra-prima. Esperamos que ele seja um homem que não cumpra com suas promessas ou pelo menos nos dê como presente, mesmo que seja de cinco em cinco anos, filmes brilhantes, sensíveis e inesquecíveis, como sempre será a obra do mestre Miyazaki.

(Pedro Giaquinto) 

Uma Estréia Sem Sustos

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O cinema na Irlanda se notabilizou por revelar grandes talentos para a indústria cinematográfica de Hollywood. Não só atores, atrizes ou diretores, mas também grandes produções foram rodadas nas belissímas paisagens irlandesas, entre elas, destacam-se filmes como Coração Valente, Braveheart (1995) e O Resgate do Soldado Ryan, Saving Private Ryan (1998).

Entre os atores e atrizes, que se destacaram internacionalmente, vale citar Daniel Day Lewis, único ator que conquistou três vezes o Oscar de Melhor Ator e estrelou filmes como Meu Pé Esquerdo, My Left Foot (1989), Gangues de Nova York, Gangs of New York (2002) e recentemente Lincoln, Lincoln (2012). Já Maureen O’Hara, a bela irlandesa ruiva e de olhos verdes, hoje com 93 anos, nascida no subúrbio de Dublin, trabalhou com grandes diretores entre eles Alfred Hitchcock e John Ford. Entre os inúmeros filmes em que trabalhou  estão o faroeste Rio Bravo, Rio Grande (1950) e Depois do Vendaval, The Quiet Man (1952) ambos dirigidos por John Ford e contracenados com seu amigo de longa data, John Wayne. Entres os diretores Neil Jordan e Jim Sheridan ocupam o topo da lista dos cineastas irlandeses que atingiram reconhecimento internacional. Jordan realizou filmes como Nó na Garganta, The Butcher Boy (1997) e Café da Manhã em Plutão, Breakfast on Pluto (2005). Já Sheridan, do excelente e já citado acima, Meu Pé Esquerdo, dirigiu os célebres e imperdíveis Em Nome do Pai, In the Name of the Father e O Lutador, The Boxer (1997).

Com exceção de O Guarda, The Guard (2011), tido como o maior sucesso de bilheteria na Irlanda e estrelado por Brendan Gleeson, atualmente o grande nome do cinema da terra dos Leprechauns, o cinema irlandês não têm lançado grandes obras e nem ao menos novos talentos que possam chamar a atenção da critica e do público mundo afora.

Recentemente estreiou nas salas de cinema da Irlanda, O Mar, The Sea (2013), o primeiro longa-metragem do diretor Stephen Brown. O filme que ainda não tem previsão de estréia para o Brasil, foi adpatado do romance de mesmo nome, escrito por Jonh Banville vencedor do Man Booker Prize em 2005, e que também assina a adaptação de sua obra para o cinema. Engana-se quem pensa que Baville seja somente um novato no cinema. O escritor também roterizou The Last September, The Last September (1999) e o aclamado sucesso junto a critica Albert Nobbs (2011), no qual dividiu os créditos da adaptação da novela de George Moore “The Singular Life of Albert Nobbs“, com Gabriella Prekop e Glenn Close que interpreta magistralmente o personagem título.

Já o diretor Stephen Brown, que se aventura pela primeira vez em um filme de longa duração, tem no currículo somente dois curtas-metragens, The Breathing (1992) e The Curious (1995). Como a grande maioria dos diretores de cinema, Brown tem um trabalho voltado para o mercado publicitário. Realizou diversas campanhas para grandes supermercados ingleses como Tesco e Marks Spencer, além de realizar vídeos cooporativos.

O Mar narra a história de Max Morden, que após a morte de sua mulher, retorna para o vilarejo litorâneo onde viveu sua infância, tentando encontrar a tranquilidade necessária para terminar seu livro sobre o pintor Pierre Bonnard, mas o vilarejo provoca memórias de quando passava o verão com a família Grace, as crianças Myles e Chloe, seus pais Connie e Carlo e a governanta Rose, enquanto a morte de sua mulher continua a assombrá-lo.

Brown retoma o tema dos conflitos e problemas existentes nos relacionamentos humanos, que já havia trabalho em seus dois curtas-metragens. O filme é todo estruturado dentro da linguagem de flashbacks, que neste caso, não tem somente a função de evocar o passado do personagem, mas misturar e confundir o momento presente com as reminiscências dos acontecimentos do passado, o que no início poderá deixar o espectador um pouco desorientado. O emprego do flashback, quando bem utilizado traz dinamismo para filme e Brown soube como usá-lo, transmitindo a informação necessária ao entendimento e a progressão narrativa, reforçando de maneira equilibrada os pontos de vista do personagem e introduzindo fatos novos, relevantes à trama. Diferente de outros filmes, quando os personagens retornam para seu lugar de origem e lá tentam encontrar respostas no passado para os seus problemas no presente, o personagem principal no longa de Brown não faz esse retorno com este propósito. As lembranças veêm até ele, e se entrelaçam com o momento presente e o passado recente, que a todo instante é revisitado pela morte da mulher.

O elenco conta com o ator irlandês, nascido em Belfast, Irlanda do Norte, Ciarán Hinds que interpreta Max Morden. Hinds ficou conhecido por seus trabalhos em filmes como Munique, Munich (2005) dirigido por Steven Spielberg e Sangue Negro, There Will Be Blood (2007),  filme que valeu o Oscar de Melhor Ator para Daniel Day Lewis. O elenco conta ainda com a participação da renomada atriz francesa Charlote Rampling, que tem na bagagem trabalhos como Os Deuses Malditos, La Caduta Degli Dei (1969), uma das obras-primas antiguerra e antinazista realizada pelo mestre do cinema italiano Luchino Visconti. Trabalhou também com cineasta japonês Nagisa Oshima, em Max, Meu Amor, Max, Mon Amour (1986) filme no qual sua personagem se apaixona por um chimpanzé, provocando na época do seu lançamento, certa polêmica entre o público e crítica, além de ter protagonizado dois filmes do diretor francês François Ozon, Sob a Areia, Sou le Sable (2000) e o acima da média À Beira da Piscina, Swimming Pool (2003).

Nem mesmo a direção segura, apesar do peso da estréia, um elenco de qualidade e uma história que se não é brilhante, não deixa de ser até certo ponto interessante, pela maneira na qual Brown faz uso dos flashbacks, foram suficientes para salvar o filme, que aos poucos, ao longo da projeção, vai se transformando em lugar comum, e onde a força narrativa se perde gradativamente.

E se Brown alcançará sucesso internacional, como aconteceu com os seus compatriotas, só o tempo e mais alguns filmes dirão. De qualquer maneira, Brown fez a lição de casa e obteve uma estréia dentro da média.

(Pedro Giaquinto)