O Punk Como Forma de Expressão

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Logo após o declínio do rock progressivo, que dominou o cenário musical da metade dos anos 60 até pouco mais da metade da década seguinte, surgiu um movimento musical e cultural intitulado punk rock, que tinha como características principais músicas curtas, rápidas, barulhentas e tocadas com o uso de poucos acordes. As letras rebeldes e sarcásticas abordavam ideais politicos anarquistas, niilistas e revolucionários. Os problemas sociais enfrentados pelas classes menos favorecidas como o desemprego, também eram inseridos nas letras que ainda abordavam temas como a guerra, violência e drogas. Os relacionamentos e o sexo também tinham o seu espaço nas enfurecidas canções. Bandas como Ramones, Sex Pistols, Stooges, MC5, New York Dolls, The Clash entre outras, fizeram grande sucesso entre os amantes do gênero. O punk rock se espalhou por todas as partes do mundo com sua linguagem agressiva e a filosofia “Do It Yourself” (Faça Você Mesmo, em português).

O cinema, como não poderia deixar de ser, retratou em uma grande quantidade de filmes o movimento musical que, chocou a grande maioria das pessoas em meados da decada de 70, por vociferar contra um Estado repressor e a favor da liberdade de expressão. Surgiram filmes que retrataram o estilo da vida punk como Suburbia, Suburbia (1984), Sid & Nancy – O Amor Mata, Sid and Nancy (1986) e SLC Punk!, SLC Punk! (1999), além de documentários como Geração Punk, Blank Generation (1980), Punk: Attitude, Punk: Attitude (2005) e o muito bom e altamente recomendável Botinada: A Origem do Punk no Brasil (2006), dirigido pelo ex- VJ da extinta MTV Gastão Moreira ou até mesmo  produções como o excelente A Festa Nunca Termina, 24 Hour Party People (2002) do britânico Michael Winterbottom, que misturava eventos reais e ficcionais com rumores e lendas sobre o punk.

Aos saudosistas daqueles tempos, no qual a rebeldia da juventude contra o sistema político era transformada em música, chega aos cinemas do Reino Unido e República da Irlanda, o novo filme do diretor sueco Lukas Moodysson, Nós Somos os Melhores, We Are the Best! (2013).

O filme, ambientado na Suécia no ano de 1982, narra a história de Bobo (Mira Barkhammar) e Klara (Mira Grosin) pré-adolescentes, amigas inseparáveis e fãs do punk rock. Elas se sentem ignoradas e deslocadas na escola e em família, já que todos dizem que o punk morreu. Um dia, como provocação a um grupo de garotos, elas resolvem montar uma banda. Logo, convidam para o grupo Hedvig (Liv LeMoyne), devido ao seu talento musical. Entretanto, Hedvig é cristã e nada tem a ver com o estilo punk, tendo que ser iniciada no movimento pelas enstusiasmadas garotas.

Na Suécia de Moddysson, bandas como Ebba Grön e KSMB foram os principais nomes da cena musical punk rock que, no início da década de 80, começava a amargar o seu declínio em detrimento ao interesse comercial da indústria musical. A perda da irreverência e o desprezo pela sociedade, tornaram-se irrelevantes dentro da nova cena musical, que surgia no final da década de 70, a new wave. O novo estilo musical incorporava música eletrônica, experimental e disco. Na tentativa de se opor à new wave, os suecos, remanescentes do punk rock, aderiram ao hardcore, que tinha como características princiais as músicas tocadas de forma mais rápida e agressiva, embora preservasse as canções curtas e as letras politizadas do punk rock.

O cineasta sueco, em seu novo trabalho, não se mostra preocupado em debater as influências do punk rock na sociedade sueca da epoca. O cenário musical é apenas pano de fundo para situar as três pré-adolescentes, dentro de um contexto social, que possibilita a contra-argumentação como forma de contestar as regras estabelecidas em uma das etapas mais intensas do desenvolvimento humano, repleta de transformações, dúvidas e questionamentos. E nada seria mais instigante do que contextualizar a cena punk para tratar temas como a rebeldia e as desilusões na pré-adolêscência, quando as descobertas estão envoltas de muita dor e sofrimento, sentimentos geralmente encontrados nas letras do punk rock.

Moddysson retoma temas que já havia trabalhado em seu primeiro longa-metragem, Amigas de Colégio, Show me Love (1998), entre eles o amor inocente e por muitas vezes cruel que antecede a adolescência, o preconceito e o bullying, fenômeno que se desenvolve no ambiente escolar e ultimamente tem recebido maior atenção da mídia em geral.

Depois do gênio Ingmar Bergman (1918-2007), realizador de inúmeras obras-primas, entre elas, O Sétimo Selo, The Seventh Seal (1956), Persona, Persona (1966) e O Ovo da Serpente, The Serpent’s Egg (1977), não é por acaso que Lukas Moodysson, é um dos maiores expoentes da nova geração de diretores suecos com reconhecimento internacional, tendo realizado grandes trabalhos como o já citado Amigas de Colégio, a belíssima e sensível comédia Bem-Vindos, Together (2000) e Para Sempre Lilya, Lilja 4-ever (2002) que retrata de forma visceral e dramática o tráfico humano e a escravidão sexual. Ambos os filmes ganharam notável reconhecimento de crítica e receberam vários prêmios em diversos festivais de cinema.

Em Nós Somos os Melhores, as três personagens têm caracteristicas distintas dentro da obra. Bobo sonha com a conquista de um grande amor, à exemplo de sua mãe, sempre envolvida em relacionamentos amorosos conturbados e fugazes. Já Klara é a personificação da rebelde sem causa, vinda de uma família liberal, na qual os pais não a repudiam por gostar de uma música violenta e radical. Hedvig, ao contrário, é uma garota reprimida e introspectiva, que encontra na ideologia punk a chance de se libertar da rigída criação religiosa estabelecida por sua família.

É fato que o punk, enquanto movimento musical, morreu há mais de três décadas e deu lugar a um pop punk engomado, criado por uma indústria cultural que visa a massiva venda do seu produto, colocando rostos jovens e bonitos com corpos tatuados vestidos em roupas pseudo-punks compradas em lojas de shopping centers. Por outro lado, a atitude da ideolgia punk, que gritava para o mundo a favor de revoluções para transformar uma sociedade desigual, corrupta e preconceituosa, esta sim, continua viva.

O filme estréia em 30 de maio nos Estados Unidos. No Brasil, o longa foi exibido no Festival do Rio no ano passado, mas ainda não tem previsão de estréia no circuito comercial. Resta aguardar para ver o resultado do novo trabalho do cineasta sueco, que demonstrou ter fôlego para realizar trabalhos, que continuem retratando de forma comovente o diversificado e complexo universo das relações humanas.

(Pedro Giaquinto)

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