Dostoiévski Ganha Releitura Criativa e Bem Humorada

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Não é de hoje que o cinema e a literatura caminham juntos. A simbiose entre a narrativa verbal e visual se transformou ao longo dos anos em prática comum entre as duas artes. E é através das adaptações e transcrições literárias, que o cinema nos proporciona o encontro visual com os personagens e os cenários descritos nos romances, que foram construidos por nossa imaginação palavra por palavra, paragrafo por paragrafo, incondicionados por quaisquer que sejam os motivos. O cinema, por sua vez, dá as cores e as formas dos personagens, transformando o que antes tinha sido imaginado em algo visualmente real.

Renomados diretores já adptaram famosos clássicos da literatura mundial, que vão desde Sófocles, Goethe e Shakespeare, passando por Vitor Hugo, Kafka, Proust entre tantos outros.
As obras do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) são temas recorrentes nas adaptações literárias para o cinema, seja quando são transcritas para às telas na íntegra, fidedigno ao texto original ou quando foram somente inspiradas livremente na obra. Entre as várias transcrições para o cinema da obra de Dostoiévski, vale destacar O Idiota, The Idiot (1951), dirigido pelo mestre do cinema japonês Akira Kurosawa; Noites Brancas, Le Notti Bianchi (1957), dirigido pelo italiano Luchino Visconti e O Grande Pecador, The Great Sinner (1949), adaptação do diretor norte-americano Robert Siodmak para o livro O Jogador e que tinha no elenco as estrelas Gregory Peck e Ava Gardner.

Uma nova releitura da obra do escritor russo chegou às telas dos cinemas no ínicio do mês no Reino Unido e República da Irlanda, com lançamento previsto para os Estados Unidos para dia 9 de Maio e ainda sem previsão de estréia para o Brasil.  Depois do sucesso de crítica do seu aclamado filme de estréia Submarino, Submarine (2011), o diretor britânico Richard Ayoade traz às telas a adaptação da segunda novela de Dostoiévski, O duplo, de 1846. Além de dirigir a adaptação, Ayoade também escreveu o roteiro em parceria com Avi Korine.

Em O duplo, The Double (2013), Simon James (Jessse Eisenberg) é um homem tímido, pacato, que é negligenciado em seu trabalho, desprezado pela mãe e ignorado pela mulher dos seus sonhos, Hannah (Mia Wasikowska). Vivendo de maneira indiferente e se sentindo impotente frente sua situação, tudo muda de repente quando conhece o seu novo colega de trabalho, James Simon, que para sua surpresa é idêntico a ele. A diferença é que James Simon é carismático, confiante, e bom com as mulheres. Aos poucos Simon James percebe que o seu duplo lentamente começa a assumir sua vida.

Com uma roupagem diferente e traduzindo de maneira à servir ao universo politizado no qual tratava sua obra no início da carreira, o cineasta italiano Bernardo Bertolucci, conhecido por filmes como O Último Tango em Paris, The Last Tango in Paris (1973), O Último Imperador, The Last Emperor (1987), que lhe valeu o Oscar de Melhor Filme e Diretor, e Os Sonhadores, The Dreamers (2002) só para citar os mais populares, também baseou-se livremente na novela do escritor russo como premissa dramática para o filme que rodou em 1968 intitulado The Partner. Realizado durante o auge do movimento estudantil de 1968, o filme narra a história de Jacob, um estudante com idéias revolucionárias cuja existência solitária é abalada pelo aparecimento de seu duplo, que o incentiva a ter um maior engajamento político. Considerado um dos filmes mais radicais do cineasta, Bertolucci inspirou-se pelas teorias de Karl Marx e Sigmund Freud, realizando, dessa maneira, um filme-manifesto que capta os principais dilemas da geração de 1968.

Já Ayoade, não transforma a novela do escritor russo em instrumento político. Ele se mantêm mais próximo da obra, pelo menos no que diz respeito ao mundo que cerca o protagonista tanto no livro quanto no filme. De uma maneira segura e tranquila, o diretor transita sem problemas pela complexidade do trabalho do escritor, onde a característica ambiguidade dos seus personagens, que vivem no limiar psicológico entre a estabiliade e instabilidade, a consciência e a incosciência, a fantasia ou a realidade, estão intrisicamente inseridos na dicotomia existente em toda a sua obra. E sem transpor a linha tênue, que separa os opostos na obra de Dostoiévski, o cineasta dosa de maneira perfeita e eficaz os momentos cômicos e dramáticos, mantêndo-se fiel ao universo Dostoievskiano, conhecido por explorar a autodestruição, a humilhação, a loucura e o suícidio.

Por conseguinte, Ayoade criou a atmosfera ideal para o longa-metragem, dando um certo ar de filme noir à sua adaptação, fazendo transparecer o aspecto soturno e tenso da obra de Dostoyevski. E vale lembrar o trabalho de Jesse Eisenberg, que tem eficiente desempenho na composição do duplo personagem. Há quatro anos, o ator havia ganhado notoriedade por sua atuação como Mark Zuckerberg, um dos fundadores do Facebook, em A Rede Social, The Social Network (2010).

Ayoade demonstrou ser um cineasta talentoso, e sobretudo corajoso, ao trazer para às telas, de forma competente e inteligente, a complexa genialidade de um dos escritores mais importantes do século XIX, que influenciou gerações de grandes nomes da literatura mundial no século seguinte.  Dessa maneira,  Ayoade entra para o seleto grupo de grandes diretores que experimentaram transcrever a obra de Dostoiévski que, sem dúvida alguma, retornou ao cinema em grande estilo, à altura de sua importância.

 (Pedro Giaquinto)

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