A Bíblia Volta ao Cinema

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De tempos em tempos, a criação do mundo através do ponto de vista bíblico, é fonte de inspiração e matéria-prima para a produção de épicos filmes no cinema, seja no âmbito orçametário ou no grandioso elenco escalado. O maior número de produções do gênero ocorreu entre os anos de 1950 e 1970. Em 1966, por exemplo, John Huston dirigiu A Bíblia… No Início, The Bible… In the Beginning, no qual narrou os 22 primeiros capítulos do livro de Gênesis.  Cecil B. De Mille rodou um dos que pode ser considerado o mais importante dos filmes bíblicos Os Dez Mandamentos, The Ten Commandments (1956) , estrelado por Charlton Heston no papel de Moiséis. O canastrão ator norte-americano estrelaria ainda outros dois filmes do gênero, Ben-Hur, Ben-Hur (1959) e A Maior História de Todos os Tempos, The Greatest Story Ever Told (1965), este último, orçado em 20 milhões de doláres, quantia astronomica para os padrões da época. O filme italiano Barrabás, Barrabas (1962), falado em inglês e dirigido pelo cineasta norte-americano Robert Fleischer, explorava a crise existencial do crimonoso, interpretado por Anthony Quinn, no lugar do qual Jesus leva a culpa por seus crimes. É impossível não mencionar duas produções que causaram a indiganação de muitos cristãos na época de seus lançamentos. O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, marxista, ateu e anticlerical, retrata no filme franco-italiano, O Evangelho Segundo São Mateus, Il Vangelo Secondo Matteo (1964), um Cristo severo e inflexível. Já o norte-americano Martin Scorsese tocava, de maneira ainda mais profunda, nas feridas de uma igreja católica conservadora, ao retratar um Cristo repleto de medos e dúvidas, relutante e luxurioso, no aclamado e polêmico A Última Tentação de Cristo, The Last Temptation of Christ (1988).

Cerca de dez filmes sobre o tema, deverão ser lançados nos próximos dois anos. Desde A Paixão de Cristo, The Passion of the Christ (2004), o gênero não tinha sido tão comentado quanto agora.

Noé, Noah (2014), lançado quase que simultaneamente em todo o mundo, é o primeiro da fila. A Paramount Pictures investiu pesado na produção, desembolsando cerca de 125 milhões de doláres para trazer às telonas a epopéia de mais um herói biblíco. Russel Crowe encarna o personagem título. Ele vive com a esposa Naameh, interpretada por Jennifer Connelly, e os filhos Sem, Cam e Jafé, em uma terra desolada, onde os homens perseguem e matam uns aos outros. O Criador desapontado com os homens, dá a Noé a missão de construir uma arca  e lhe recomenda abrigar junto com sua família, um casal de cada espécime existente para salvá-los de um dilúvio que acabará com a vida na Terra. Dessa maneira será possível recomeçar uma linhagem pura, sem os pecados e a maldade que haviam corrompido os homens, apagando de vez as mazelas deixadas pela civilização anterior. O elenco conta ainda com as participações do ator galês Anthony Hopkins e os britânicos Ray Winstone e Emma Watson.

O responsável por dar vida ao herói biblíco nos cinemas é o cineasta Darren Aronofsky. Além de dirigir o filme, Aronofsky assina a produção e também o roteiro ao lado de Ari Handel, que já havia co-roteirizado Fonte da Vida, The Fountain (2006), também dirigido por Aronofsky.

O cineasta, mesmo tendo na bagagem filmes de baixo orçamento como Réquiem por um Sonho, Requiem for a Dream (2000), O lutador, The Wrestler (2008) – filme responsável pelo retorno triunfal do ator Mickey Rourke, que havia desaparecido do cinema na década de 90, após amargar sucessivos fracassos nas telonas – e o excelente Cisne Negro, Black Swan (2010), parece não ter tido qualquer problema em conduzir a trajetória de Noé no cinema. O filme, na verdade, poderia ser tranquilamente dirigido por qualquer diretor do porte de Roland Emmerich, conhecido pela realização de inúmeros filmes castástrofes, repletos de explosões e frenéticas sequências de ação, que por diversas vezes, tornam-se cansativas e intermináveis, mas que se transformaram em grandes sucessos de bilheteria dos útlimos tempos, entre eles figuram: O Dia da Independência, Indenpence Day (1996), O Dia Depois de Amanhã, The Day After Tomorrow (2004) e 2012, 2012 (2009).

Fica evidente que a essência do trabalho Aronofsky, caracterizada por sua genialidade em conduzir a trama e a facilidade na qual nos prepara para o clímax final, parece terem se perdido ao longo de Noé, características estas, compreensivelmente ofuscadas pela utilização dos efeitos especiais em demasia, em grande parte na primeira hora de projeção. O maior exemplo, são os guardiões enviados pelo Criador para ajudarem na construção da arca, que parecem ter sido retirados dos filmes de franquias como Harry Potter ou O Senhor dos Anéis.

Já quando a ação da trama se concentra nos conflitos entre os personagens no interior da embarcação, o filme ganha contornos mais interessantes, nos rementendo mesmo que vagamente, aos instantes que antecediam os momentos finais da personagem de Natalie Portman, em o  Cisne Negro ou a sequência final de Requiem para um Sonho. A  transformação que o personagem Noé sofre ao saber da grávidez da mulher de seu filho, nos remete também aos personagens com tendências autodestrutivas e turbulências psicológicas, presente nas obras anteriores do cineasta. À exemplo do Cristo retratado por Martin Scorsese, o Noé de Aronosfky, não é o Noé descrito na Biblía, como protestam os mais engajados na palavra do Senhor. O Noé que está nos cinemas, não carrega nenhum resquíscio de divindade ou pureza, ao contrário, é um ser radical, impiedoso e obstinado em completar sua tarefa, em nome do Criador, nem que para isso seja preciso matar um dos seus.

E justiça seja feita: jamais Aronosfky conseguiria transcrever cinematograficamente a história de Noé para o cinema, sem a utilização de efeitos especiais, e diga-se de passagem, necessários neste caso. E depois desse grande dilúvio, resta saber se Aronofsky abdicará dos orçamentos milionários, produzindo filmes para um público onde as explosões e os efeitos especias são o que mais importam, realizando dessa maneira, obras de pouca expressão artística, e onde o controle e a aprovação final está subordinada aos grandes estúdios ou retornará aos filmes com orçamentos mais modestos, com histórias bem contadas e personagens melhores desenvolvidos, onde se têm o controle total da obra.  Como já dizia o velho dito popular: “Depois da tempestade vêm a bonança”. E qualquer que seja a escolha de Aronosfky, com certeza ele saberá como desfrutar dela.

(Pedro Giaquinto)

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