A Humanização Extraterrestre

Under-the-Skin-1

Pode-se dizer que Scarlett Johansson está de volta fisicamente às telas de cinema. Isso porque em seu último trabalho não foi possível vê-la, mas apenas ouví-la em Ela, Her (2013) o mais recente e ótimo trabalho de Spike Jonze. No filme, Johansson interpretou Samantha, a voz do sistema operacional por quem Theodor, vivido por Joaquin Phoenix, se apaixona.

Agora em Sob a Pele, Under the Skin (2013), Johansson é uma alienígina que chega à Terra e começa a percorrer estradas e paisagens desertas em busca de presas humanas. Sua principal arma é sua sexualidade voraz. Com o decorrer dos acontecimentos ela acaba por encontrar outro sentido para sua jornada na Terra.

Em seu terceiro longa-metragem, o diretor britânico Jonathan Glazer, de Sexy Beast, Sexy Beast (2000) e Reencarnação, Birth (2004), mostra-se um cineasta que não pretende estilizar ou tematizar sua obra. Ele parece gostar de se aventurar em diferentes tipos de histórias. Em Sexy Beast, Glazer conta a história de Gail (Ray Winstone), um gangster que resolveu se aposentar do crime e viver com a esposa e amigos na Espanha. Gail vê sua paz se ruir quando é forçado a voltar para o mundo do crime. Já em Reencarnação, Glazer muda totalmente de foco para contar a história de Anna (Nicole Kidman) que dez anos após a morte do marido, reconstrói sua vida e próximo do seu novo casamento, surge um garoto de dez anos dizendo ser a reencarnação de seu marido.

À exemplo de Spike Jonze, Glazer só agora, 14 anos depois de seu primeiro longa-metragem e quase dez anos após o segundo, realiza o terceiro filme em sua carreira. Ocupado com o trabalho na direção video clipes para conhecidas bandas do cenário pop rock munidal entre elas, Massive Attack, Radiohead e Jamiroquai, além de uma extensa lista de companhas publicitárias realizadas para grandes nomes entre eles: Guinness, Sony, Volkswagen, Nike entre outros. Certamente a realização de longas-metragens por enquanto não deva ser a prioridade na carreira de Glazer.

O interessante é que Glazer em nenhum momento se utiliza da linguagem publicitária ou mesmo do video clipe em seus filmes. Se o fizesse, evidentemente não seria algo de se espantar, quando muitos são contaminados pela estética publicitária. Ao contrário, o cineasta se apropia de um cinema mais covencional, ao estilo do cinema realizado pelo austríaco Michael Haneke, que utiliza-se de planos longos e lentos, sem se influenciar por modismos ou acrobáticas movimentações de câmera, além de fazer pouco uso de diálogos.

Embora, Glazer não tenha criado um estilo visual próprio na realização de seus filmes ou até mesmo não tenha a pretensão em seguir determinado gênero ou tema como conteúdo de sua obra, o diretor se mostra extremamente bem à vontade quando realiza seus trabalhos para à telona.

Pode-se notar facilmente algo em comum em seus trabalhos. Glazer não tem pressa alguma em dizer qual é a história que está contando. Ele dá tempo aos seus personagens, deixando que o filme se desenrole num ritmo lento, fazendo com que o público mantenha-se de olhos grudados à tela, esperando que se revele a qualquer momento o verdadeiro motivo por qual os personagens ali estão.

Em Sob a Pele, esse cadenciamento é ainda muito mais perceptível desde a abertura, que remete ao clássico de Stanley Kubrick 2001 – Uma Odisséia no Espaço, 2001 – A Space Odyssey (1968) e nas sucessivas vezes nas quais as ações da personagem principal se repetem, o que na verdade poderá causar depois de algum tempo até certo desconforto, para um público acostumado com filmes mais agitados. E pode ser, que em um ou outro momento, sejam surpreendidos por seus próprios cochilos ou pelos roncos das poltronas vizinhas.

Muitos podem estar se perguntando: o que quer dizer cadenciamento, ritmo lento em um filme onde um ser extraterrestre chega ao planeta Terra? O filme de Glazer não é um blockbuster e engana-se quem vai ao cinema pensando que encontrará efeitos especiais de última geração, explosões ou a dizimação da raça humana por seres interplanetários.

Glazer fez um filme que se desenrola no íntimo da personagem principal, que após realizar bem sucedidas investidas contra suas presas, ávidas por sexo e encantadas com a beleza da alienígena sedutora interpretada por Johansson, são facilmente enganadas e pouco depois dadas como mortas. Em uma dessas investidas, a personagem de Johansson se depara com o autoconhecimento. À partir daí o filme reconstrói o processo de humanização da personagem de Johansson, que acaba por apropriar-se dos sentimentos humanos com os quais jamais tivera contato. E é nesse processo que ela se tornará frágil e vulnerável aos humanos com más intenções, o que certamente custará caro à sua vida na Terra.

Vale ressaltar a coragem de Scarlett Johansson, que se mostra em mais de uma cena completamente nua, quando outras atrizes prefeririam utilizar dublês de corpo. É certo que essas cenas se tornarão uma eficaz ferramenta publicitária para atrair o público masculino, e porque não, até mesmo o público feminino. Entretanto, é justo que se diga que não será somente a nudez de Scarlett o único motivo para se atrair o público. O filme tem o seu mérito ao sair dos usuais clichês de filmes sobre alieníginas, optando por discutir outros temas, ao invés de permanecer no lugar comum dos filmes do gênero.

No Brasil o filme tem lançamento previsto para o dia 8 de Maio.

(Pedro Giaquinto)

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