Um Romance Tecnológico

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Quantidade nunca foi sinal de qualidade. É grande a lista de diretores que têm em suas filmografias inúmeros filmes, o que na maioria das vezes resulta em qualidade duvidosa, onde um ou outro filme se sobressai. Por outro lado, existem aqueles que têm em seus curriculos poucos filmes, mas que construiram uma filmografia sólida, na qual muita das vezes criaram obras concisas, transformando-as em referências de gênero e época dentro da qual foram criadas. Stanley Kubrick foi um deles. Ao longo de sua carreira, foram apenas treze filmes e dentre eles algumas obras-primas, tais como: 2001: Uma Odisséia no Espaço, 2001: A Space Odyssey (1968), Laranja Mecânica, A Clockwork Orange (1971), O Iluminado, The Shining (1980), Nascido para Matar, Full Metal Jacket (1987), entre outros. Certamente Spike Jonze, guardada as devidas proporções, segue um caminho parecido. Sua estréia na direção de filmes de longa-metragem se deu apenas no final da década de 90 com o filme Quero ser John Malkovich, Being John Malkovich (1999). De lá para cá dirigiu somente três outros filmes Adaptação, Adaptation (2002), Onde Vivem os Monstros, Where the Wild Things Are (2009) e Ela, Her (2013). Equivoca-se quem pensa que Jonze seja um cara ocioso, que viva de braços cruzados. Ao contrário, trabalhou duro e construiu toda sua carreira realizando vídeo clipes, curta-metragens, comerciais para a TV, e vez ou outra figurando como ator em alguns filmes. Trabalhou com nomes importantes no cenário da música pop mundial entre eles: Bjork, Chemical Brothers, Fatboyslim, Beastie Boys e Daft Punk. Foi co-criador e produtor da série de televisão da MTV Jackass, co-fundou e editou a revista Dirt, além de ser co-fundador da Directors Label com Chris Cunningham e Michel Gondry. Pelo visto, ociosidade não seria a palavra ideal para descrever os poucos filmes realizados por Spike Jonze durante todo esse tempo. Evidentemente, com tantas outras atividades, fica dificil encontrar tempo para se dedicar integralmente aos filmes de longa-metragem. E somente agora o diretor lançou o seu quarto filme Ela, Her (2013). No filme Joaquin Phoenix vive Theodore, um escritor solitário, que após falhar no seu último relacionamento, acaba por se apaixonar pelo sistema operacional do seu computador Samantha (Scarlett Johansson). Esta história de amor incomum explora a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia.

E não é de hoje que o homem e a máquina têm sido abordados exaustivamente pelo cinema. Desde os robôs que tentam dominar o mundo às guerras cibernéticas relacionadas ao ato de espionagem e violação da segurança nacional.

Jonze, por sua vez, já havia flertado com o tema em seu curta-metragem intitulado I’m Here (2011), onde conta a história de amor entre dois robôs que vivem em Los Angeles. Desta vez, ele quis ir ainda mais longe, aproximando a máquina das sensações e sentimentos mais humanos como o amor, o sexo  e até o ciúmes, trazendo algumas questões, que antes soariam fora da realidade ou formuladas por mentes insanas. Entre elas, a pergunta que inevitavelmente somos levados a nos questionar: Seria possível o ser humano se relacionar afetiva e sexualmente com uma máquina? Se ainda não, só o tempo dirá. E é em um dos momentos brilhantes do filme que esta pergunta poderá ser respondida ou quase. Samantha, percebe algo diferente no comportamento de Theodore prevendo que provavelmente o sexo virtual poderá não ser suficiente e que a relação entre os dois necessita com urgência de algo a mais, ou melhor dizendo, algo real. E dessa maneira Samantha sugere uma terceira pessoa no relacionamento. Se realmente em um futuro próximo começarmos a nos apaixonar por sistemais operacinais de computadores, Jonze talvez tenha criado uma nova modalidade de sexo, alguma coisa como um ménage à trois cibernético.

Diferente dos seus dois primeiros longa-metragens, nos quais a complexidade estrutural dos roteiros ditavam o ritmo do filme, Ela centraliza essa complexidade no intimo das personagens, criando com eficácia uma equilibrada mistura entre solidão, romance e tecnologia.

Se nos primórdios de nossa existência havíamos recebido a denominação de Homos Sapiens por termos um cérebro altamente desenvolvido com inúmeras capacidades como raciocínio abstrato, linguagem, introspecção e a resolução de problemas, hoje não há dúvidas que passamos a viver na era do Homo Digitalis.

No geral, somos reféns da própria tecnologia que criamos e não negamos isso de maneira alguma. Nos dias atuais as pessoas não conseguem viver mais desconectadas. Fazemos tudo com um simples toque no teclado, desde resolver problemas bancários, fazer compras on line, seja uma peça de roupa, um livro, frutas ou legumes e escrever cartas tornou-se algo obsoleto, quando a praticidade de se enviar um e-mail e em questão de minutos obter o retorno, é infinitamente mais prático ao que antigamente leva-se dias. E assim será por muitos e muitos anos até a próxima evolução, seja esta qual for.

(Pedro Giaquinto)

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